sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Veludo Azul

imagem: arquivo pessoal
'
'
“Serei cortante como a lâmina da língua
Eu vivo à míngua do meu próprio ser
E vá crescer
Que eu sempre serei criança”

Los Porongas, em Não Há

'
Ela disse enquanto eu dormia pela manhã ainda ausente de sol que a pele acima de meus ombros estava descascando. Respondi de olhos semi-fechados e embriagados de sono que estava apenas rejuvenescendo.

Quando criança minha mãe controlava rigidamente todos os meus passos. Fazia marcação homem a homem. Em qualquer mínima tentativa de driblar sua atenção para chutar a bola na rua, ela aparecia de trás da sombra do pé de amora para me trazer para o lado de dentro do portão. Qualquer mero esforço para ultrapassar a linha da grande área do quintal de casa e ela surgia como o quarto árbitro no futebol, mandando-me voltar para o banco. O controle era tanto que o amigo mais próximo é que tinha de ir em casa; o contrário só se ela fosse junto.

Durante certo período minha mãe passou a trabalhar fora e eu ficava na casa da vizinha que tinha filhos com idades não muito diferentes. Logo o dia passou a ser menor que os anteriores. Pela manhã a escola e a tarde o futebol no campinho de terra batida, ou a disputa no videogame concorrido do único amigo que tinha o brinquedo. Em outras tardes desenvolvíamos nosso senso de descobertas. O tempo voava e quando víamos já era quase noite. Voávamos juntos como pássaros sem identidade, sem pressa, sem motivos conscientes para pouso. Havia calma para crescer, noites inteiras para descanso, e os melhores aprendizados que aconteciam fora da sala de aula. A liberdade daquelas tardes me ensinava ruas de coisas novas.

Aprendi a explorar o lado de baixo da rua que dava na fazenda que existia do outro lado da rodovia, a perceber a diferença entre o barulho da água da cachoeira do da chuva sob as árvores; a saber diferenciar o pinho do fruto da pinheira, da goiaba branca da vermelha, do abacaxi da bromélia. Aprendi a caminhar sobre pedras azuis e me equilibrar no limo verde.

Aprendi a fazer um nunchaku com um cabo de vassoura e um pedaço de corrente do cachorro, e assim lutar como Bruce Lee. Aprendi que com uma caixa de madeira de frutas da feira era possível esculpir um carrinho de rolimã. Aprendi a pegar rabeira na caçamba do caminhão de areia para voltar para o alto da ladeira. Aprendi a guerrear sob o veludo do céu segurando um carretel de linha nas mãos. Aprendi a aprimorar a precisão de meus movimentos mirando nas bolinhas de gude adversárias. Aprendi a andar em grupo e distinguir quem era a minha turma. Aprendi a cumprir horários pois não podia chegar em casa depois da minha mãe.

Aprendi que quando nasce um bebê seu primeiro sorriso não é de olhos abertos. Aprendi que a inocência está na troca dos dentes. Aprendi que toda criança sabe contar uma história em preto e branco. Aprendi que a falta do pai é como a ausência da cor. Aprendi que coragem é a fraqueza de quem desafia o rio. Aprendi que inteligência é não duvidar dos limites do corpo. Aprendi que os amigos da infância não serão substituídos pelos da faculdade. Aprendi que quando uma menina diz que não quer ser beijada, é porque ela está pedindo o contrário. Aprendi que quando a mãe diz para ter cuidado na estrada é porque ela não quer que o filho cresça rápido demais.

Meninos não deveriam crescer. Um dia acordam e estão mais velhos. Descobrem o quanto fugaz é o sono da esperança.

Um dia pisam firme e não sentem mais o veludo do azul da infância.

Um dia a cor de mar profundo em dia claro fica turvo com sinais de tempestade. Um dia a maciez branda carregada de ternura fica áspera como uma esponja de aço.

Os dias ficam longos, permeados de coisas supostamente sérias, de gente grande que não pode adoecer. De momentos controlados como que pré-programados em computador. De justificativas travestidas de sucesso para aliciar o amanhã. De verdades frouxas que traçam os caminhos do hoje. De conjecturas dissimuladas que não correspondem à beleza do ontem.

Um dia o menino acorda e as flores que enfeitam o corredor são todas de plástico.

Um dia o menino vê que cresceu sem perceber; reconhece-se no espelho pelas imagens que ficaram para trás.

À noite quando ela voltou para casa comentou que minha mãe me proibiria de pegar tanto sol e me deu um protetor solar.

Disse que devo rejuvenescer com cuidado.

Jânio Dias

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Música nos Silêncios

imagem: Angels playing the fiddle and pipe, c.1475-97, Francesco Botticini


“God only knows what I'd be without you”
'

Eu era só uma pequena melodia para os meus pais aos três anos de idade e já brincava de disco voador com os pequenos compactos de vinil que ficavam embaixo da vitrola. Desenhava bonequinhos sorrindo e casinhas de uma só janela com jardins cercados nas capas, uma simbólica representação feliz dos passeios no parque nos fins de semana. As ilustrações imperfeitas da família passeando junta era a minha forma de contar a eles que eu tinha uma banda. Brincar de passear era minha canção preferida.

Ainda pequeno eu ficava no quintal ouvindo à distância o som da vitrola enquanto minha mãe cuidava dos afazeres domésticos. Um olho no pé direito para chutar a bola, um ouvido no som que vinha de dentro da cozinha. Um olho no céu tentando antecipar o formato do bicho que a nuvem se transformaria, o outro ouvido na canção do Roberto que minha mãe entoava junto. Sobre a tampa de cimento do poço dois carrinhos duelando de bate-bate, na sala o silêncio do chiado do disco que precisava ser virado o lado. O chiado do vinil sempre foi como a respiração da canção.

O rádio quebrava o sossego dos cômodos depois da aula, enchia a casa de gente fazendo companhia para o menino que era filho único. Uma algazarra de novidades saltava dos alto-falantes, pulos de permissividade invadiam aqueles dias, sons completamente diferentes do que o braço da vitrola havia se acostumado emergiam de seu ventre. Blitz, Barão, Titãs... Eu fazia uma orgia nas fitas cassetes originais do meu pai gravando por cima, até que ele comprasse uma virgem só para meu prazer. O rádio levava para dentro da casa os primeiros amigos em forma de canções.

A música é uma amizade irrevogável. Ela está presente nos momentos mais doces tanto quanto nos mais ácidos. Ela está no almoço de domingo, na celebração do aniversário, no beijo da conquista, no alívio da formatura, no tesão dos sussurros escondidos, na tensão do casamento planejado; no nascimento do choro, no enterro do sono, na comemoração do campeonato, na bebida da religião, no rosto de quem nos despedimos, na alegria do reencontro, na memória passageira e permanente da ausência. A música é um amigo que não abandona.

A música foi minha ama em meu rebento. O meu choro ao nascer a trouxe para perto. O balançar do berço e os enfeites suspensos ao mosqueteiro serenavam meu adormecer. O balanço dos braços da minha mãe combinados ao assobio baixo de meu pai me fazia encontrar os sonhos. As canções de ninar ainda embalam a memória distante dos meus sonos.

A música é minha amante leal. Leva-me pra cama com olhos vendados. Confio nela como seu prisioneiro. Minha liberdade tem o sopro da entrega da melodia. Nossa respiração tem sucessão rítmica de intervalos diferentes. Nossos ouvidos absorvem sons em escalas ascendentes e descontínuas. Uma sucessão linear e incoerente de beijos que rompem os segredos do dia. Nossos olhos são versos em fuga, nossos cílios o contraponto na composição. Nossos corpos são como refrões em movimento dispostos a se repetir em qualquer lugar. Nosso amor é um improviso no caos de forma consentida.

A música me acalma, estreita a passagem de sangue dentro de mim. Diminuo o passo, encolho os joelhos, levanto os ombros e descanso o pescoço. Repouso a coluna no primeiro degrau para senti-la. Recolho a luz do ambiente para não ofuscá-la. Abro todas as janelas da casa para multiplicá-la. Eu dobro os anos vividos para ter estado presente onde a música aconteceu.

Eu trabalho sob música, eu me alimento com música. Sem música eu me disperso, fico vulnerável. Perco a concentração do copo, erro a direção da boca. O corpo fragiliza, as células se descompõem. A música é meu equilíbrio, meu anticorpo.

A música eleva o silêncio.

Jânio Dias

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Antes Que Termine o Dia

imagem: The Kiss, 1907-08, by Gustav Klimt


“In time, I'll belong to you
It's how it's meant to be”

Little Joy, em The Next Time Around
'

Hoje acordei protegendo-me dos raios de sol que atravessavam as frestas da janela. Eles eram lisos e finos, mas intensos, cegamente brilhantes, como o dia que lhe conheci.

Logo a luz abaixou e o rubro de seus cabelos afogou-me a face. Não foi possível tocá-los nem mesmo perguntá-los em que quarto estava, pois o improvável de sua presença logo se fez realidade. Vi o meu edredom verde de listas brancas sobre a cama, os travesseiros vestindo fronhas azuis que combinam com os lençóis no mesmo tom, estampados com pétalas que parecem pintadas com o dedo indicador. Os livros amontoados, logo acima de minha cabeça, embaralhados como cartas que um dia lhe enviei, sossegam os contornos do meu amanhecer.

Levantei meio desorientado como um besouro que acabou de ser atacado e apenas dobrou uma das asas. Debato-me com minhas mãos em minhas pernas, ponho os pés no chão meio que entortando os joelhos, aprumo a coluna, e enfrento o corredor rumo ao banheiro. Tropeço no pufe pequeno na passagem pela sala, esbarro na estante de cd’s, faço meia volta e inclino o corpo para a cozinha. Preciso de um café urgente, seis xícaras, a medida exata aprendida com você. Só o cheiro já me satisfaz, lembra demoradamente nossas manhãs de mesa montada para dois. Relaxo acordando no sofá, fico disperso, sobrevoando o horizonte da parede de dvd’s.

Tenho tido tampo tempo para mim mesmo nos últimos dias, e mesmo assim ainda considero cedo para gastar as horas que economizei em todos esses anos de trabalho desgastante procurando outro do mesmo gênero. Esse drama não gostaria de viver outra vez, queria um filme mais leve e ensolarado, como as tardes que passávamos olhando a vista do alto da sua janela. Criativo como os rascunhos dos versos que experimentamos, onde sempre desenhávamos um menino e uma menina no final. Positivamente alegre como os nomes de crianças que inventamos, docemente fértil como as peças de lego que colocávamos uma sobre a outra e de repente tínhamos uma cidade.

Ainda gosto de usar caneta hidrocor para contornar os traços das linhas que estico e encurto na folha de sulfite. Lembra que foi você que me ensinou a técnica correta para preencher o lado de dentro do desenho? Você me prometeu que um dia faríamos o mesmo nas paredes de nossas casas. Eu queria começar pela parede atrás do seu sofá, como se fosse desenhar com a ponta do canivete num banco de praça ou numa árvore centenária no parque. Queria marcar primeiro o corpo do seu apartamento para depois entregar-lhe o meu. Eu nunca te contei, mas um dia escrevi com giz de cera nossos nomes atrás do seu guarda-roupa. Foi a forma que encontrei para nunca abandonar seu quarto.

Não faz muito tempo refiz o caminho daquele passeio beirando o mar, um final de semana pulando amarelinha sob as praias, desde antes o sol nascer a partir de Bertioga até o dia se pôr em Ubatuba. Um único fim de semana vivido em horas que se multiplicavam na delicia de cada paisagem e na surpresa incerta do próximo repouso. As curvas intensas da estrada, o cheiro constante da brisa das árvores, a vista incansável de um verde molhado contornando o infinito que se confundia com nossos delírios de não mais querer voltar. Seguir em viagem como nômade, como quem destina a vida ao sacrifício de não fincar raízes, como vento a semear sem parada para colheita. Como pássaro a deixar um amor em cada lugar. Refiz sozinho o percurso para em cada momento mágico encontrá-la em toda parte.

Outro dia foi seu aniversário e preparei um presente personalizado para você. Sempre gostamos tanto daquela música do Wander Wildner, aquela, lembra? Mas você sabe, eu nunca gostei da idéia de ser tão direto, sempre tive a imagem de que isso torna algo tão profundo em alguma coisa comum e perecível. Sempre procurei dizê-lo de tantas outras formas. E lembrando da camiseta, preparei uma estampa especial para você usar. Um fundo vermelho com vários símbolos em branco, aleatórios, soltos, mas presos um ao outro. O desenho de dois gatos que são um casal, um meio violão da capa daquele disco, um chapéu de cangaceiro, um par de all star; uma flor que é um pouco lírio, um pouco papoula e bastante amor-perfeito; um varal com roupas, um sol sorrindo, a torre Eiffel, uma bateria; um pingüim, uma pirâmide, uma lua, um infinito e um coração. E atrás, em letras pequenas e todas juntas: eutenhoumacamisetaescritaeuteamo.

Hoje tirei o meu dia para pensar em você. Terminei o filme que começamos assistindo juntos e não conseguimos chegar ao fim. Cortei a cerca viva do muro e tentei não sujar o quintal da vizinha. Levei o carro para completar o óleo e aproveitei para consertar aquele pneu. Fiz três orçamentos diferentes de tinta e separei três palhetas de cores para escolher com você. Comprei um vinho novo que me chamou a atenção e acho que o Alexandre não poderá vir em casa no domingo. Baixei o quarto episódio da quinta temporada de Lost e acho que vou assistir todos novamente. Escolhi uma música do Liltle Joy como toque do celular para quando você ligar.

Hoje acordei agarrado a você. Levantei o edredom, pedi que ficasse. Você me beijou, agarrei o outro travesseiro e ouvi sua voz suave baixinha em meu ouvido dizendo que já voltava.

Eu respondi sonolento: - Volta antes do dia terminar.

Jânio Dias

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Canção da Cavalgada

imagem: White Horse Hill, Uffington, 1992, Evangeline Dickson


“I used to think, as birds take wing,
they sing through life, so why can't we?”

R.E.M, em I'll Take The Rain


Eu não tenho certeza da idade que tenho. Talvez vinte e cinco ou cinqüenta e dois; talvez setenta e um ou apenas dezessete. Talvez nove ou cinqüenta e nove; às vezes três, outras trinta e três. O ano que nasci não passa de uma data marcada em um papel envelhecido e desfigurado, o qual não dou fé. O dia e o mês é apenas referência para quem quer saber meu signo ascendente. Meu aniversário é festejado para acender velas para a esperança. O ano que nasci foi submergido pelas agulhas do tempo.

Meu corpo é jovem como canto que estranha a primeira audição. Minha pele é lisa como sabonete novo que escorrega nas ondas planas da água na banheira. Meus pulmões inspiram o ar frio da madrugada para expirar o vento quente da novidade. Meus olhos sentem ao longe o brilho sutil da transparência, meus ouvidos repousam a atenção de segredos flamejantes. Meu falo desperta a cada suspiro feminino. Meu coração é frágil como silêncio que se expande no escuro. Minha idade tenra subestima meus desejos.

Eu fico sério com minha sobrinha como se fosse a filha que ainda não tenho. Eu vejo livros infantis e penso nos seus olhos fixos em meus lábios imaginando a fantasia que conto. Eu me preocupo se o garfo irá ferir sua pequena boca, se o chinelo não está apertado, se não era mais confortável uma camiseta regata, se o doce que a deixa feliz não prejudicará seus dentinhos. Eu quero que ela assista todas as animações que edificam minha alma infantil. Eu me transformo nas rodinhas de sua bicicleta enquanto ela não descobre o equilíbrio. Eu não a respeito se ela adormece em meus braços, a quero correndo e sofrendo o risco de ralar os joelhos para depois eu assoprar. Minha idade quer duplicar as lembranças de quando era criança.

Eu insisto com a amiga virtual para que saltemos da tela do computador. Nossa distância é um muro de teclas de onde envio meu sorriso para receber o dela. Peço para que pule comigo e me encontre. Quero identificar a cor de seu cabelo, conhecer a altura de seus olhos, ouvir o movimento de seus lábios sobre o dia que teve. Quero que nosso abraço se transforme em aroma que perdure na imagem de nossa busca. Quero que nossa conversa resulte no vento que impulsiona a vela da lembrança de nossa adolescência. Minha idade é uma simulação para a plenitude do crescimento.

Eu convenço um velho amigo a revelar suas fotos digitais no bairro mais distante. Faço-o descer duas estações de metrô antes. Quero andar ao seu lado por mais tempo, quero sua companhia rara em uma tarde de segunda feira de pouco sol. Convido-o para assistir uma comédia romântica européia no cinema cult da cidade. Ele resiste, acha que vão nos confundir com algum casal de namorados. Adoro a idéia e jogo o braço por cima de seus ombros. Nossa amizade é um caso de amor antigo, explico a quem finge que não olha. Alongo o caminho da volta para que nosso passeio eternize em algum momento de nossa vida adulta. Minha idade fortalece o caráter da amizade.

Minha mente enlouquece com os devaneios criados pelo homem. Às vezes quer ser criança escondida embaixo do véu da mesa, outras vezes quer a frente da batalha armada. Às vezes quer brincar de soldadinho de chumbo, outras vezes quer rasgar o título de eleitor. Às vezes quer ciranda no asfalto, outras vezes quer desistir de seguir. Minha idade é o meio-fio que equilibra minhas decisões.

Eu ouço V da Legião com a maturidade de quem sempre ergueu o sorriso na despedida. Em cada compasso de sua amargura medieval um pouco mais de mim solidifica-se na incerteza sóbria de dois cavalos-marinhos. Em cada verso lisérgico um abraço epiléptico dança comigo com olhos marejados. Em cada espasmo de relâmpago cansado uma voz trêmula acaricia minhas orelhas durante a canção. Em cada lembrança repentina do que é composta a tristeza sinto o alívio cintilante da saudade dos dias que virão. Às vezes tenho a idade do exílio.

Eu leio Virginia com a idade do amargo por entre as gengivas. A cada frase com pausa acentuada um pedaço do que sempre desisti em mim toma contornos de um blues épico. A cada ponto de encerramento vislumbro um fim atenuador para a dor do que ela me transforma. Um deserto de almas que preenchem a sala ao som de Radiohead. Um cemitério em festa com a chegada da torcida organizada. A visão do horizonte sem contornos de terra maciça. Às vezes eu tenho a idade das trevas.

Meu corpo tem o sono agitado de um velho em cadeira de rodas que rodopia entre bicicletas e skates no parque. A força dos meus braços altera o movimento padrão do eixo circular que suporta minha massa muscular e ossos. Sou todo matéria que interfere e confunde, que perturba e agride, que provoca e acaricia. Sou todo fogo e areia. Chuva em noites árduas. Minha idade rija ainda molha a terra.

Eu tenho certeza da idade que tenho. Minha idade é a soma de tudo o que vivo menos todos que ainda não vivi.

Jânio Dias

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Amnésia II

imagem: Kite Flying in Kensington Gardens, Arthur Rackham


“Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos.”

Legião Urbana, em O Teatro dos Vampiros



Olho em direção a rua e vejo o lampejo de duas crianças correndo, uma descalça e a outra usando uma camiseta branca de escola, descendo a ladeira olhando para cima e desviando dos carros e das ondulações da calçada desnivelada. Estico meu pescoço para fora da janela para ver o que está acontecendo. Cinco casas abaixo elas param. Pousam os olhos ofegantes para o alto em direção aos fios do poste de luz da rua. Paradas e com os cabelos desconsolados observam uma pipa enrolada, dançando e tremendo, presa a alta tensão.

Sinto minhas impressões e conhecimentos soltos no ar como a linha da pipa levada pelo vento. Minhas idéias não se aproximam mais, não se juntam, não colam mais uma na outra.

Vejo minhas lembranças presas a uma armação de bambu, leve, coberta de papel fino, suspensas no alto, distantes de mim, ligadas a uma corda imensa que não toco mais. Minha memória prendeu-se a dias que não mais tenho.

Minha memória é como uma amiga distante que passa por mim quando faço a curva na esquina da rua de casa. É o virar de costas para a roupa nova desfilada pela namorada, é o botão do casaco que caiu, é o pijama branco com as meias pretas na máquina de lavar. É o chá de erva-doce que ferveu, a omelete com azeitonas que passou do ponto, a louça empilhada sobre a mesa sem toalha, a pia molhada depois de deitar. Minha memória não fecha a porta da geladeira de madrugada ou apaga a luz do banheiro na saída. Minha memória me dá as costas quando a procuro de frente.

Minha memória não tem agenda e desconhece as semanas com feriados prolongados. Trai a segunda pensando exclusivamente na chegada da sexta. Engole as terças, desacredita das quartas e pisa de olhos fechados nas quintas. Respira a semana sem mastigar a essência da passagem dos dias, quer o fim sem se emocionar com o meio, quer a parte de dentro sem contornar o lado de fora. Quer alisar a casca e não ferir a pele. Quer a pressa da chegada e a ausência da partida. Minha memória é uma semana em descanso.

Minha memória virou uma estrada de alta velocidade durante um temporal. Não enxergo nada à frente, os limpadores não dão mais conta da força da água que cai. O vapor da minha respiração de olhos perdidos embaça os espelhos do carro. Os vidros parecem ter flocos de neve que engolem o caminho. Caminhões passam rente deixando um zumbido de poças arremessadas no guard-rail. Quando a tempestade passa há dois pedágios em níveis diferentes na rodovia com rotas distintas. As placas não orientam, só confundem o ralo das informações. É preciso escolher um sem descer do veículo, achar um retorno que a ponte esconde, dar marcha a ré na contramão. Minha memória está paralisada no acostamento e não lembra de usar o pisca alerta.

Minha memória é como algo que passou por mim quando ainda queria ter mais. É como a brisa fresca que surge no meio da tarde ao voltar do almoço na rua. É como acordar cedo sem conseguir levantar o corpo da cama. É banho quente interrompido quando falta luz no inverno. É jogo de futebol quando a bola bate na trave. É roupa seca no varal quando começa a chover. É um bom livro lido no metrô quando é preciso desembarcar. É o telefone celular que canta desesperadamente enquanto eu sonhava. É uma boa conversa com aquele bom chefe sem cerveja. É a sobremesa de gelatina de abacaxi da Dona Ana que não dura muito tempo quando conservada. Minha memória me abandona nos momentos mais doces.

As crianças abaixam os olhos para o poste e os fios. Optam por esquecer aquele papagaio.

Eu sou os olhos da memória daquela criança com camisa.

O conjunto do que deveria ser minha memória é hoje um mar de pipas embaralhadas no céu.

Jânio Dias

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Amnésia

imagem: The Shelf, 2004 Charles E. Hardaker


“This is my way of saying goodbye
Because i can't do it face to face
I'm talking to you
After it's too late
From my videotape”

Radiohead, em Videotape


''
Algo se perdeu no instante impreciso das minhas lembranças. Não recordo mais como eu era há seis anos e seis meses atrás. Não encontro em meus cabelos o cheiro daquele tempo.

Os meus olhos sem brilho não reconhecem mais as pessoas paradas na entrada. Entro no elevador com mais seis estranhos e deixo todos apertarem primeiro seus andares enquanto decido qual é o meu. O cartão que abre a porta de vidro não tem mais o meu rosto fino e jovem estampado nele. O corredor a direita é uma avenida desconhecida de carpete azul marinho. Passo pela máquina de café e paro; sinto nela uma ligação quase materna. Será que algo passará a fazer sentido? Na outra porta mais a frente vejo uma placa com a inscrição em negrito: finanças e controladoria. Coloco a mão na maçaneta com o pavor de quem acha que está prestes a abrir uma jaula. Olho para dentro e a sala está vazia. Vejo computadores ligados sobre as mesas e papéis espalhados nas cadeiras. Onde estão todos? Ou será que sou eu que não pertenço a esse lugar?

Não sei o que estou fazendo ali, não sei quem eu deveria procurar, não lembro que caminho fiz para chegar aqui. Não sei como recomeço ou de onde parto.

Minha memória está sem chaves.

Jânio Dias

sábado, 10 de janeiro de 2009

Dona Ana

foto: arquivo pessoal
'
“Love is not the easy thing
The only baggage you can bring
Is all that you can't leave behind”

U2, em Walk On


“Will you still need me, will you still feed me
When I'm sixty-four?”

The Beatles, em When I'm Sixty-Four

'

Dona Ana nasceu em 31 de dezembro, há 64 anos atrás. Quem a vê pela primeira vez cozinhando tem a sensação de 55, quem tem o privilégio de saborear qualquer de suas tentadoras sobremesas acha que ela não passa de 48, quem a viu no show do O Teatro Mágico acha que não tem mais do que 42. Dona Ana rejuvenesce a cada novo olhar.

Dona Ana possui o dom da sedução culinária. Conquista imediatamente pelos bocejos do estômago. Seja uma peixada portuguesa, uma irrecusável feijoada, a simplicidade do improviso da macarronada, o encanto do cheiro do arroz com feijão, a imbatível omelete de batatas, ou o irrecusável cafezinho fresquinho, Dona Ana desmonta a casa para criar na visita a vontade de voltar sempre. Há visitas que remoem seus sorrisos por não poderem ficar.

Dona Ana é uma figura simples do lar com coração de mãe que não cansa de acariciar. Dia destes havia sobre a estante de sua sala ao lado do rádio, um cd intitulado Pena Branca, Cantar Caipira. Peguei-o com a curiosidade da beleza que me trouxe à memória as manhãs caipiras de domingo na tevê que meu pai não perdia em casa. Quando abri o encarte, uma surpresa pra mim: estava autografado. Carinhosamente dedicado para aquela senhora que estava na cozinha providenciando um cheiroso café. Perguntei espantado a ela sobre aquela proeza (já que ela nunca havia mencionado o gostar caipira) e ela me respondeu com a naturalidade mãe da espontaneidade: “Ah, esse cd o Pena Branca veio aqui em casa com a esposa dele que é minha amiga e deu pra mim. Você gosta dele? Vou ligar agora pra casa deles e contar que você gosta dele.”

Dona Ana tem a alma agitada como criança superativa e docemente irresponsável como adolescente apaixonado. Meses atrás ela torceu um dos tornozelos, não foi ao médico e se automedicou. Todo o pé inchava um pouco mais a cada vez que alguém a repreendia pelo descuido. De tanto que a amolaram resolveu ir ao hospital, recebeu algumas broncas como se fosse a mãe do paciente que demorou para levar o filho. Foi claramente advertida a ficar em repouso: “nada de colocar o pé no chão”. Ao chegar em casa ela obedeceu prontamente o médico. Deve ter ficado umas seis horas descançando para em seguida preparar a lista do supermercado e arrastar a perna de um lado para outro da casa que tem escada que leva ao quarto. Recusou-se nos primeiros dias a usar muletas, alguém pensando em seu conforto até sugeriu uma cadeira de rodas, o que foi também recusado. Logo a dor aumentou e todo o pé mais meia perna foram engessados. Resolveu então aceitar as muletas e fazer compras no mercado com um carrinho motorizado. O gesso quebrou e a planta do pé trincou em dois lugares. Foi ameaçada de internação e cirurgia, mas desafiou a idade e o tempo para ajudar a enfeitar a festa de fim de ano da empresa. Bem que o médico tentou, mas não conseguiu parar a Dona Ana.

Dona Ana renova a cumplicidade e confiança com as gerações mais recentes. Em um 1º de abril não muito distante, a neta de apenas 13 anos ligou para ela com uma suposta novidade: estava namorando. A neta arteira já havia ligado para uma Tia onde recebeu de reação um preocupante e abalado “você já contou isso para o seu pai?”. Dona Ana, no lumiar de sua sobriedade e modernidade, comemorou com a neta: “Que ótimo meu amor! E como ele é?”.

Dona Ana sempre trabalhou com vendas, mas desarmada da intenção de iludir. Talvez venha daí o aperfeiçoamento do carisma para cativar as pessoas, a sensibilidade para a atenção minuciosa com alguém ainda desconhecido, o alerta para não faltar o pão, a paciência para primeiro acomodar e depois se servir, a insistência para que provem o doce de sua simpatia. Dona Ana sempre vendeu cuidado.

Dona Ana é da época dos retratos em preto e branco, da elegância discreta em trajes de banho, dos chapéus como símbolo de inocência e progresso, das luvas que tocavam com delicadeza ou desafiavam com aspereza, da dança no salão de olhos fechados e respeito nas mãos, do suspiro suspenso ao avistar o pretendente mais bonito. Dona Ana é de uma época onde a paixão tinha o som leve da neblina.

Dona Ana é vendaval de sentimentos em casa cheia e mesa farta.

Jânio Dias

sábado, 3 de janeiro de 2009

Laila

imagem: The Music Lesson, 1877, de Frederic Leighton


“Good times for a change
See, the luck I've had
Can make a good man
Turn bad”

The Smiths, em Please, Please, Please Let Me Get What I Want


Foram tantos os versos escolhidos, tantos os cartões não escritos, os dedos encolhidos, as mãos recolhidas, os olhares distraídos, as letras imprecisas, os textos inacabados, como se a vida começasse no momento do riso da despedida.

Foram tantas as tentativas, os encontros e também os desencontros, como se várias consoantes perseguissem a mesma vogal, como se o final da frase tentasse beijar o próximo parágrafo, como se o travessão impedisse o encontro da bola com a rede.

Foram tantos os momentos de ansiedade, as mãos suadas, o cabelos desalinhados, os bolsos da calça com as línguas para fora, como se beijassem as barras e enroscasse no próprio pescoço.

Foram tantos os minutos contados, os segundos suados, a insegurança repentina, os objetos atirados, os sonhos imaculados, os desejos sonegados, a frase arrancada, a lágrima rasgada, o véu queimado, como se o tempo engasgasse com o vento da saudade.

Laila acaba de anotar em um pequeno caderno que lembra uma agenda sem dias sequenciais alguns dos momentos mais repetitivos dos seus últimos 15 anos de vida, como se os empilhassem para que sejam queimados com o ano que passou. Ela acredita na cremação do ano que ficou para trás. Dessa vez, resolveu fazer uma pilha de anos e queimá-los todos juntos. Esse fogo suaviza a tempestade dos dias de então.

Laila registra a cada final de ano as pequenas conquistas de uma vida de lutas e largos sorrisos. Seus registros são feitos em folhas diferentes e aleatórias, sem datas e com a mesma caneta, como se a noite não começasse com o pôr-do-sol. Mistura todos os fatos e a cada 365 dias tem a sensação de que sua vida pode ser barco sem ponto exato para desembarcar. Ela acha que a contagem de tempo diminui a distância entre o presente e o mistério do que a vida ainda lhe oferecerá de belo.

Em meio a tantos registros sem ordem cronológica preenchendo o branco das linhas de seu caderno sigiloso, embaralhados em níveis de importância, soltos como fotos de um álbum antigo e só tocado na visita do parente que não se vê há anos, há uma folha com um ranking recente dos momentos considerados mais especiais, como o dia em que sentou no colo do papai Noel quando criancinha ainda sem os dentes da frente – aquele dia prolongou um pouco mais a existência de suas fantasias infantis; a formatura da 8ª série em cerimônia realizada dentro da sala de aula – concluir o ensino fundamental era ter o dobro de anos de estudos de seu pai; o primeiro trabalho com mesa e computador – a fase do balcão e atendente de telefone havia finalmente acabado; o nascimento da primeira sobrinha, a prova para tirar a habilitação, a inscrição para o vestibular e a dúvida cruel da escolha, o reencontro após 20 anos com a avó materna; o namorado que lhe apresentou para a família antes dele conhecer a dela, o ano novo em Blumenau, a venda do fusca para viajar para Londres, a volta para casa; a noite em que dormiu sozinha em sua nova casa, as demais manhãs preparando o seu próprio café, o dia em que reuniu em sua casa quase todos os amigos mais antigos; o autógrafo personalizado do autor famoso da internet, a criação do seu próprio blog, o show da banda que não vinha nunca, as alianças de noivado ganhas no intervalo do show – seu ranking são lembranças molhadas de tardes de sol a pino.

Laila vira a página de seu caderninho, olha para a nova folha ainda sem passado, e fixa o olhar no que ainda não aconteceu, no que ainda lhe falta para provocar sentido nessa existência. Ameaça listar uma série de desejos ainda não realizados, uma lista de conquistas a serem alcançadas, como o homem que planeja os detalhes para escalar uma montanha. Pressiona o bico da caneta contra a folha pálida, escreve e traceja: um filho.

Laila quer dias de alegrias infinitas.

Jânio Dias

sábado, 9 de agosto de 2008

A Ternura e o Papel Toalha

'
imagem: Towards the Hills, 1980, de Peter Davidson
'
'
“If there's a place I want to go
Then I'll be there with you
'Cos in my dreams the things
I'm wishing for
Keep coming true”

Belle and Sebastian, em Waiting For The Moon To Rise


Quando alguém querido faz aniversário, quero desperdícios de beijos, orgias de abraços e sorrisos nas orelhas.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que o dia nasça ensolarado e sufocante para que seus olhos ardam na garganta a beleza controversa de existir.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que sua noite reflita a luz úmida da emoção dos pais no dia em que ele veio ao mundo.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que chova apenas na janela do seu carro ou do seu ônibus. A chuva no vidro sem molhar o rosto é a lágrima da saudade de uma lembrança que ainda não nasceu.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que seu telefone vire uma sinfonia de chamados distintos causando o caos na lembrança, o suspense na memória, o transe na língua indecisa, o conforto do abraço na voz reconhecida.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que o trânsito pela manhã tenha o dobro do volume para que os votos de felicidades do amigo que ligou cedinho sejam estendidos com promessas de encontros que duram uma rodovia inteira. A amizade é o asfalto da estrada dos que não estão sozinhos.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que seu amigo mais distante e de anos ausente em sua história, apareça em texto confessando a cobiça pelo encontro sempre prometido e nunca realizado. Uma promessa de reencontro não cumprida é o selo de resistência da amizade.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que a voz da pessoa amiga que se transformou em rota indefinida, clareie nesse dia os traços da reconciliação. Que a ausência seja um lapso na memória; que a falta seja substituída pelo indulto; que a carência seja a urgência do afeto amigo.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que o dia se alongue e que a noite não termine. Que suas horas não passem e que as visitas e ligações dos amigos se multipliquem como formiga ao encontro do açúcar. Porque a vida é doce quando se tem amigos.

Quando alguém querido faz aniversário, desejo que seja agraciado com o espanto da surpresa escondida dentro do escuro de uma sala sob palmas e cantos. Que lá esteja presente a sabedoria preocupada da mãe que não descansa nunca e o suor dedicado do pai que protege e encoraja uma nova luta. Que lá esteja vivo o brilho da amizade conquistado na infância e o silêncio respeitoso do amor da menina que ficou guardado nas fotografias. Que o primeiro pedaço do bolo seja oferecido ao guardião do seu coração. Que o segundo pedaço seja colocado de lado como símbolo de que todos os presentes têm a mesma importância. O bolo repartido são pedaços das amizades galgadas no tempo.

Quando eu faço aniversário, o primeiro sopro na vela é um pedido de proteção aos deuses às pessoas que não puderam estar presentes; o segundo sopro é um agradecimento as vidas daqueles que estão comigo; o terceiro é a despedida no tempo que passou e um carinho de boas vindas ao novo instante que iniciou.

Quando alguém querido faz aniversário, sinto vontade de rabiscar nossa história no papel toalha branco e macio e depois enxugar as lágrimas quentes com ele; para que o sal se misture ao azul da caneta e nossa ternura se torne infinita como o mar.

Jânio Dias

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Onde os Fracos não Têm Vez

imagem: Woman Holding a Balance, c.1664 de Jan Vermeer


“Que angústia desesperada
Minha fé parece cansada
E nada, nada mais me acalma

(...)

Apesar de todo desencanto
Eu não desisto de amar”

Barão Vermelho, em Daqui Por Diante



Meus anos de inexperiência nesta vida ainda me questionam: será que sempre é assim?

Um menino de 12 anos está do lado de dentro de uma mercearia, mais precisamente nos fundos, pesando cuidadosamente dois quilos de milho para um freguês. Há ali vários barris com cereais. De arroz a quirela; há até um barril com ração para cães. Os sacos de papel que vão de um a dez quilos estão em uma bancada ao lado, enfileirados em ordem crescente. Seu instrumento de trabalho é uma vasilha para colocar o conteúdo pedido dentro do saquinho, uma balança e uma caneta para somar as contas que são desenhadas no papel que fica exposto sobre o balcão, normalmente usado para enrolar o pão. Outra pessoa aproxima-se e encosta os braços sobre a geladeira horizontal que abriga diversas bebidas. O atendente mirim após devolver o troco pra o comprador do milho, pergunta em que pode ajudá-lo. O novo cliente quer feijão, cinco quilos. O menino, franzino como galhos secos esquecidos no tempo, olha para sua direita e pede ajuda ao colega mais velho de trabalho. Cinco quilos era peso suficiente para sucumbir seus jovens braços de menino que freqüentava a sexta série primária pela manhã, para logo em seguida correr para o trabalho precoce na mercearia. Cinco quilos tornavam a balança que ficava na altura de seu nariz maior em dois metros. Cinco quilos o faziam entregar os pontos e lembrar que deveria estar na rua empinando pipa no céu. Ele sempre sonhava com cinco quilos de nuvens brancas em formatos de desenhos diversos sobre sua cama.

Em uma padaria, o garoto de 16 desembarca de sua bicicleta e entra rapidamente para trocar o agasalho que estava usando no jogo de basquete pelo avental branco e bordado do estabelecimento. Mal entrou e o patrão já ordenara que abastecesse a geladeira com refrigerantes. O garoto arrastou um engradado plástico com coca-cola e passou a colocar em movimentos rápidos as garrafas de vidro no interior do móvel, uma a uma, outra sob outra e outra, quando de repente, um estouro. No contato entre a garrafa de cima e debaixo, o corpo de uma delas explodiu em sua mão direita, provocando um longo corte na palma. O patrão ao perceber o que havia acontecido, arrasta a mão do rapaz para debaixo da torneira da pia na intenção de que a corrente da água parasse o sangramento. Como o vermelho do sangue continuava a colorir a pia, a esposa do chefe resolveu intervir também. Abaixou-se junto à máquina de preparar as bebidas quentes, pegou pó de café, tomou para si a mão do garoto como se fosse um vaso de alguma planta qualquer e a encheu daquele pó preto como terra, estancando a sangria. Havia um silêncio de alívio nos olhares dos patrões. Segundos depois, o proprietário do estabelecimento pegou um pano, enrolou na mão do garoto e lhe explicou que o levaria ao pronto socorro, mas não poderia mencionar em nenhum momento que havia se acidentado no trabalho, pois não tinha registro de emprego. Após levar doze pontos, ter o curativo terminado e tomar uma benzetacil na bunda, voltou para o trabalho para terminar de cumprir suas tarefas, como encher a geladeira com a mão esquerda. Passou a tarde calado executando suas funções, como quem deseja que o relógio avance quatro horas em vinte minutos, lembrando que não poderia voltar para casa de bicicleta, e o pior que uma lembrança pode provocar quando não há mais alternativas para mudar o que está definido: havia sido o cestinha do jogo de basquete pela manhã; não o seria mais tão cedo.

No departamento de Logística de uma empresa de transportes rodoviários, com a promoção de um gerente para o cargo de diretor, o coordenador da área, o Geraldo, foi promovido a gerente. Abaixo dele havia duas analistas, uma delas deveria ser promovida por ele para o cargo que havia sido seu. Uma das meninas, a Helena, tinha mais tempo de casa, havia passado por várias outras funções na empresa até chegar a atual, era de confiança e tinha ótimo relacionamento com o chefe. A outra menina, a Cristina, apesar de mais jovem, tinha mais experiência na área, cursos de especialização, e autonomia própria para exercer suas funções, detalhe que não agradava muito ao Geraldo. Ele chamou as duas para conversar, uma de cada vez, explicou a situação e expôs o que imaginava que havia de bom e ruim no perfil de cada. Disse-lhes que levaria alguns dias para pensar no que considerava tomar uma difícil decisão. Ele olhava para elas e enxergava estilos diferentes com resultados semelhantes. Uma era uma lança, uma arma mais rudimentar, mas ofensiva, que sabia que quando necessário era preciso arremessar-se de cabeça para conseguir o queria. A outra era uma espada, uma arma branca pontiaguda e habilidosa em suas funções. Ambas poderiam ser a nova coordenadora da área, mas havia apenas uma vaga. Alguns dias passaram e no happy hour de confraternização do novo diretor e gerente, Helena perguntou ao Geraldo se ele poderia lhe dar uma carona e deixá-la perto de casa. Quando estavam voltando, enquanto seu novo gerente dirigia, a moça candidata passou a fazer um provocador carinho sobre o tecido da calça do homem que naquele instante era seu motorista. Geraldo a olhou com as sobrancelhas de quem tem fome no sorriso, desviou da rota original e entrou em um motel. Quatro semanas depois, Cristina recebia a notícia: sua colega Helena havia sido a escolhida.

Em uma festa rave na Serra da Cantareira, o jovem Edcarlos de apenas 22 está com os amigos curtindo a balada. A música é muito alta, um putz putz de doer o cérebro, e logo ele pensa que preferiria estar numa dessas casas que tocam clássicos do rock como Pearl Jam e Soundgarden. Edcarlos achava que o rock dos anos 90 era um maravilhoso passado próximo. Mas os amigos, sempre os amigos, o haviam convencido de curtir uma balada diferente. Ele se esforçava para tentar ser mais um ali, imitava gestos, prestava atenção nos semblantes como em órbita, tal qual em viagem astral. Ele dançava sozinho o som da multidão, mas logo viu um rosto bonito que também olhou para o dele. Camila também havia saído aquela noite com as amigas, mas para ela já era quase como que rotina. Todo final de semana aquela curtição, as amigas, as bocas diferentes, o bate estaca na cabeça, os comprimidos, o retorno pra casa e a incerteza de superar a rotina de mais uma semana. Como os olhos do jovem rapaz (cujo corpo parecia que não aproveitava a música como as demais pessoas) não desviavam de sua direção, Camila resolveu aproximar-se dele. Rapidamente estavam se beijando e a música provocando intimidade. Dois meses após esse encontro do acaso, Camila estava morando com Edcarlos. Ed (como era conhecido entre as pessoas próximas) era rapaz correto e simples que apreciava bom rock, amava sua moto e trabalhava num laboratório químico de produtos farmacêuticos. Uma noite quando estava chegando em casa vindo do trabalho, três homens brancos usando moletons com capuz o abordaram na esquina de sua rua. Queriam que ele liquidasse uma suposta dívida de comprimidos que Camila havia contraído com eles. Como sabiam que ele era trabalhador, mas também de família de posses, disseram-lhe que a dívida poderia ser quitada apenas com a entrega da moto, e iriam lhe dar alguns dias para se decidir. Ed ao chegar em casa discutiu com Camila sobre o assunto, ela negou as acusações e naquela noite mesmo saiu da casa do namorado sem dizer para onde ia. No dia seguinte, quando saia do trabalho, Ed optou por deixar a moto guardada lá mesmo. Voltou para casa de ônibus e passou os dias seguintes indo trabalhar dessa forma. Na manhã do quarto dia, quando se preparava para ir para o laboratório, os tais homens apareceram em sua frente novamente. Ele tentou explicar que não tinha o dinheiro que queriam, nem moto e não sabia mais onde estaria Camila. De forma corajosa, virou as costas para os estranhos sujeitos e seguiu para o ponto. Nesse momento, havia um ônibus parado com algumas pessoas entrando. Ed aproximou-se e apoiou a mão direita na barra da porta do veículo e deu leve impulso ao corpo para subir as escadas. O motorista da linha 7401 que observava os passageiros das 6h20 entrarem em seu veículo viu um homem branco e loiro com capuz azul sobre a cabeça logo atrás da última pessoa que lhe cumprimentaria naquele horário. Naquele momento, ao firmar os pés sobre o primeiro degrau do veículo e levantar a cabeça para dar bom dia ao motorista, um tiro a queima-roupa foi disparado contra aquele passageiro. Edcarlos morreu com um tiro na nuca ao subir no ônibus que o levaria para o trabalho.

Dois casais estavam a caminho de uma festa de aniversário, saindo da zona oeste da cidade em direção a zona sul. Mariana que dirigia um Fiesta vermelho usava óculos e não tinha certeza da localização do evento. Essa cidade tão maluca, tão escura mesmo iluminada, tão cheia de pontes e saídas parecidas, confundiam sua noção de localização. Ela não gostava muito de dirigir, mas o namorado enxergava na abdicação do volante um certo charme de independência doado a namorada. O casal amigo no banco de trás havia passado a tarde preocupados na escolha certa do presente. Ficaram indecisos entre o livro infanto-juvenil da Madonna e o primeiro Harry Poter. Acabaram optando pela rainha do pop, achavam que era uma forma criativa de introduzir por linhas paralelas a imagem da artista na vida de uma menina de 12 anos. Enquanto contavam do banco de trás para os amigos da frente os critérios na escolha do presente, Mariana tentava se entender com as placas e seus sinais às vezes tão embaralhados. No momento em que ia passar por um cruzamento, enquanto observava a placa no alto e as informações nela contida, com o carro em movimento lento fazendo a curva para a esquerda, o semáforo passou do verde para o amarelo repentino. Seu carro acabou fechando sem querer e quase sem perceber um Monza preto que vinha do outro lado. O motorista do carro escuro buzinou bravíssimo para o Fiesta, destilando inúmeros palavrões. Mariana acelerou na intenção de se distanciar dos gestos obscenos do Monza, quando de repente observou pelo retrovisor o mesmo carro cortando o seu pela direita, entrando na sua frente e de forma proposital, fazendo-a frear subitamente. Os pneus cantaram na desaceleração brusca, e num movimento rápido e de orgulho para o namorado, jogou o veículo para a direita e acelerou firme na intenção de fugir daquela situação, quando de repente ouviu-se um, dois, três, quatro estampidos. Mariana perdeu o controle do carro, subindo na calçada, batendo de frente com um poste e capotando na rua duas vezes. Policiais Civis estavam perseguindo seu carro por ela ter supostamente passado o farol vermelho no cruzamento. Segundo versão dos policiais, fizeram sinais para o Fiesta parar, mas a ordem não foi obedecida, instintivamente suspeitaram de seqüestro relâmpago, então atiraram no veículo. Apenas a namorada do amigo de trás sobreviveu ao ocorrido.

Impossível não imaginar quão desastroso pode ser a iniciativa de tentar com hombridade a própria sobrevivência ou ingenuamente entregar-se as belezas de uma aventura errante; ou mesmo apenas de bobeira, tentar ser parte minúscula da história de alguém.

Tantas são as histórias conhecidas por cada um de nós sobre as fatalidades que presenciamos ou que somos vítimas, que quase não nos chocamos mais. Quando acontece, em poucos minutos o corpo cria suas próprias camadas de defesas e torna-se negligente à acidez dos acontecimentos. A decência tarda os benefícios de quem almeja o atalho rápido e a perspicácia é a salvação dos valores mundanos. O perigo está ao lado e a morte agachada sobre o meio-fio da calçada. Não há mais lugar para inocências inatas e declarações de fé; além de pesares insignificantes como este.

Meus anos de incertezas dessa vida querem uma noite suave de sono ao lado da mulher amada para acordar na manhã seguinte e, despreocupadamente, como se nada tivesse acontecido, abrir a janela e tentar acreditar que nem sempre é assim.

Não adianta, sou dessas pessoas que oscilam entre a santa indiferença e a diabólica compaixão.

Jânio Dias

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Soneto dos Bons Homens

imagem: The Knife Grinder, 1890, de August Muller


“Eu vou chegar, pedir e agradecer
Pois a vitória de um homem
As vezes se esconde num gesto forte
Que só ele pode ver

Eu sou guerreiro, sou trabalhador
E todo dia vou encarar
Com fé em Deus e na minha batalha”

O Rappa, em Lado B, Lado A
'
'
Alguns homens curiosos e simples, de sabedoria bíblica ou de botequim, ainda enfeitam o varal flutuante das minhas recordações de menino pequeno.

Quando eu tinha em torno de cinco para seis anos, o meu pai acordava às três e meia da manhã para ir trabalhar. Em nome da independência da sua casinha própria, havia escolhido para morar um bairro recém criado numa cidade afastada da Capital, onde era o seu trabalho. Caminhava pela madrugada cerca de trinta minutos até o ponto de ônibus mais próximo, meia hora depois pegava um trem que desembocava na estação do Brás, para depois chegar até a estação da Luz. Seu caminho era iluminado pela determinação em não pagar aluguel. Na volta para casa dava uma passadinha no boteco do Seu Osmar, onde deixava parte de sua tensão diária antes de jantar. Eu só o veria na manhã seguinte, refletido na barra de wafer comprada no vagão do trem e deixada sobre o criado-mudo.

O Seu Juvenal trabalhava como pedreiro, havia chegado ao bairro antes do meu pai. Sua casinha era um cômodo só, um quadrado de quatro por quatro, num terreno de duzentos e cinqüenta metros quadrados, onde morava com quatros filhas e a esposa. Não era homem que bebia e freqüentava a pequena igreja evangélica. Era possível vê-lo à noite na rua bem vestido com seu paletó azul marinho, sua calça marrom e seu sapato Vulcabrás doado pelo patrão de alguma empreitada, segurando a bíblia embaixo do braço indo em direção ao culto. Sua luta contínua era renovar a fé para preencher seis pratos de comida diariamente.

Seu Didi era caminhoneiro, ficava longas semanas longe da família. Tinha duas meninas e um menino. Entre as meninas era mais apegado a mais velha, enquanto a segunda guardava os carinhos mais para a mãe. Adorava uma moda de viola genuína, com sabor de galinha caipira e cheiro de cuscuz recente. Nos raros fins de semana que conseguia separar para ficar no bairro, lotava a venda do Jurandir (homem ganancioso e egoísta, eterno candidato fracassado a vereador) acompanhado do violão e do seu filho. Era feita uma roda em volta dos dois onde os clássicos caipiras e seus dramas quase épicos eram revividos. Sua recompensa consistia em ter o copo constantemente abastecido de conhaque com sal e limão, para que a voz não o abandonasse.

Seu Roberto era Palmeirense fanático. O ônibus que dirigia por cerca de doze horas por dia tinha uma toalha verde estendida atrás de seu banco, como manto a protegê-lo de todo mal. Mesmo nas raras folgas não descansava nunca, ou tava complementando algum detalhe à sua casa, ou tava ajudando algum vizinho em alguma construção pelo bairro. Era muito requisitado para furar poços, possuía um método quase que espírita para determinar o local ideal onde estaria a água. Ele cortava um graveto em forma de Y e de repente o paulzinho começava a se mexer, como um detector de caça-fantasmas. Determinado o ponto preciso da cirurgia, desenhava o círculo simétrico no chão e começava a cavar, como um joão-de-barro a moldar seu abrigo na árvore, depois passava a ferramenta para o dono da casa. Seu Roberto não descansava nunca, sua vitalidade era fortalecida na ajuda ao próximo.

O Zé Cumpadre, além de habilidoso boleiro, era um agitador cultural. Promovia bailinhos na associação de amigos do bairro onde o rap e o break de Thaíde dividiam a noite com as músicas lentas para dançar agarradinho, que eram tema de novela ou filmes como Top Gun. Aos domingos pela manhã lotava um caminhão de gente para jogar futebol em algum outro bairro. Quando a idade e os efeitos da bebida avançaram um pouco mais, passou a organizar partidas na quadra da escola. Era simpático com as crianças aos velhinhos. Sem distinção, não chamava ninguém pelo nome, e sim por seu bordão pessoal: Compadre ou Comadre. Sua maior alegria era ser reconhecido na rua com um singelo cumprimento: - Bom dia Zé Cumpadre!

Seu Joaquim era dos homens mais simples e reservado, e muito querido pelos colegas. Quando me via na rua perguntava sempre sereno sobre meu pai. Nunca ficava em casa, mas era fácil encontrá-lo, ou no bar do Seu Osmar ou no botequim do Seu Damião. A diferença entre bar e botequim onde morávamos era que no primeiro era possível comprar pão. Em ambos era possível jogar sinuca, e o Seu Joaquim era mestre na arte de encaçapar. Seus reflexos melhoravam à medida que mais rabos-de-galo eram servidos. Quando não estava jogando, ficava encostado no canto do balcão observando à distância e bebendo devagarzinho sua pinguinha do alambique, tal qual passarinho a contemplar a imensidão preenchida. Quando dava o horário para o trabalho, passava em casa, pegava a bicicleta e depois pedalava trinta minutos até a fábrica de suco que tinha lá perto. Em momentos de maior euforia etílica, declamava Vinícius de forma trepidante, tal como o Fusca do Seu Didi ao passar pelas ruas de paralelepípedos do centro da cidade. Tinha um interesse cultural refinado que era visto com desconfiança e ignorância por seus pares. Gostava de repetir que o dia que a roseira balançasse pararia de beber. Roseira era sua forma poética de amante ao fazer carinho no amigo balcão (Numa tarde de sol de uma quarta-feira de trabalho, enquanto se despedia do último gole do dia, ao se distanciar do companheiro de madeira que apoiava o copo e sustentava parte do peso do seu corpo, a mesa de sinuca se moveu em sua frente, soltando-se de seu ponto fixo. Assustado, deu dois passos para trás apoiando-se outra vez na bancada amiga. Olhou em frente e ao soltar as mãos, o apoio do bar fugiu de seus dedos, correndo como se fosse uma esteira rolante em alta velocidade. Voltou a se apoiar, fechou os olhos, apertou-os forte como quem quer abri-los fora do mar, e quando tentou soltar-se outra vez, o bar era um bosque que rodopiava em sua volta. Voltou a apoiar as costas contra a parede e manter as mãos firmes sobre o balcão, como se fosse âncora que firmava a terra sob seus pés. Seu Joaquim ficou ali em alto mar por 12 horas, incapaz de abandonar a roseira para cumprir seu compromisso com o trabalho, até que o bar fechasse e os colegas o levassem para casa). Depois que a roseira balançou, Seu Joaquim abandonou o bar, nunca mais bebeu e passou a se dedicar à criação dos filhos pequenos. Cheguei a vê-lo lendo Fernando Pessoa em cima de um viaduto. Sei que hoje ele cuida de diversos jardins de um condomínio horizontal perto de sua casa, com zelo e cuidado reverenciado pelos moradores. Seu Joaquim foi meu soneto incompreendido da infância.

Esses homens singelos em suas expressões cotidianas, puros em suas intenções domésticas de sabedoria, arrojados na grandeza de enfeitar com os mesmos laços uma mesma vida inteira, comuns entre eles como o nome da bebida servida no balcão da igreja, ainda despertam em mim a curiosidade de criança que rouba conhecimento com os olhos.

De criança que avança para brincar de ganhar, que se esconde para os dedos não julgarem os atos dos adultos, que chora para que o sol ilumine a tristeza derradeira, que pula para que as barras da calça e as mangas da camisa avisem que o corpo está crescendo, que sua para que o tempo congele no infinito, que corre para que os pais saibam logo da beleza que aconteceu.

São todos homens impregnados de vícios e vicissitudes, enganos e acertos em suas maldizentes ou doces vidas.

Mas antes de qualquer coisa, dos bares ou dos céus, homens bons.

Jânio Dias

quinta-feira, 17 de julho de 2008

O Amor em Maiúsculas

imagem: arquivo pessoal


“Não preciso de modelos
Não preciso de heróis
Eu tenho meus amigos
E quando a vida dói
Eu tento me concentrar
N'um caminho fácil

Sou eu mesmo e serei eu mesmo então
E eu queria que o tempo
Pudesse voltar dessa vez
Oh yeah"

Legião Urbana, em Comédia Romântica


Há um leve nevoeiro sobre o instante impreciso da memória. Uma cortina fina e branca, quase amarela, rente à retina da lembrança, impregnada pelo perfume suave e ardente da adolescência.

Há em minha frente espasmos em slow motion de imagens de quando o corpo era capaz num primeiro impulso para o alto, como que fosse dar um toco na bola de basquete com o quadril auxiliado pelas pernas, o pulo sobre o muro da linha do trem passando para o outro lado, e depois o andar tranqüilo sobre os trilhos até a plataforma da estação. Para eu chegar até o centro da cidade para encontrar a minha turma, era preciso antes do desejo de estar presente, não pagar a condução.

Eu gostava de olhar para a minha turma como cavaleiros do século XIII, seres nobres e honrados, fiéis às suas regras e finalidades. Tínhamos o nosso próprio lema que era declamado em forma de canção e impresso em adesivo colante. Uns vestiam-se todo de preto e roupa de couro, outros de branco com jeans com buracos enormes. Quase não bebíamos por falta de dinheiro, logo investíamos todo nosso potencial criativo em cantar e discutir as canções da banda preferida. Havia também as leituras de poesia e prosa, nossa maior expressão de diferenciação. Éramos diferentes porque antes de tudo, cultivávamos a amizade e a paixão por nós e pela arte.

Havia as meninas, corpos brancos e morenos com pêlo, que em sua maioria (ou para preservar a amizade ou para celebrar a diversidade) formavam par com alguém fora do grupo. O inverso também era verdadeiro, bem como o oposto do inverso. Logo pares duradouros se formaram e o grupo ficou maior, unido e íntimo, como família italiana nas cenas de festa em filme de máfia. Uma máfia que organizava celebrações.

Tantos anos já se passaram parecendo não ser tantos assim. Às vezes parece que foi ontem, outras vezes há tanto tempo atrás. A cada ano um estágio diferente da vida foi iniciado, cumprido, modificado ou nem tanto assim. Os namoros, os trabalhos, os cursos universitários, as desistências, as formaturas, os sonhos, os casamentos, as revisões, o retorno ao começo. Os novos frutos do amor unido. Uma enxurrada de desafios dando forma à vida adulta, tomando o lugar das coisas que mais gostávamos de ter por perto, produzindo espaço para outras formas de amar. O desafio de encarar a beleza do novo, de insistir no passado, de manter a coerência do que tentávamos ser. A vontade de romper a linha do tempo e viver tudo outra vez.

Desde o dia que entraram na minha vida, nenhum inverno foi igual ao anterior.

Há como que intacto no semblante sereno da memória, como que casaco abotoado, a imagem da camiseta da banda preferida estampada com o desenho da flor que não se sabia se era um lírio ou uma flor-de-papoula. Na dúvida constrangedora da imprecisão da resposta, um apelo lírico: - Essa flor é amor-perfeito, caro senhor.

A festa numa casa noturna onde todos foram embora porque o lugar não permitia meninas de 15 anos; os encontros nos bares da região do Bexiga sem dinheiro no bolso, pedia-se uma porção de queijo e um refrigerante para a noite toda, até o metrô abrir as 5h; o primeiro amigo secreto e o presente improvisado em papel de celofane vermelho, eram flores roubadas de uma casa com jardim; a vaquinha para convencer a gerente do flat/hotel a alugar um quarto para 12 pessoas passarem a noite; o dia em que uma das meninas mais bonitas apareceu, e muito rápido um de nós disse: – Essa será minha futura esposa.

A festa de aniversário quando a menina de quinze fez 18 e todos apareceram de surpresa, gesto ensaiado com os pais da amiga; os cafés da manhã na casa do casal amigo, os churrascos revesados e as macarronadas da dona Tereza; a viagem de ônibus para um sítio, enquanto todos cantavam Mamonas Assassinas no fundão, um de nós passava mal mais ao meio com necessidade extrema de fazer xixi, mas o ônibus não tinha banheiro e não fazia parada no caminho, o amigo tentou fazer no vidro de gatorade e não conseguiu, o motorista foi obrigado a parar o veículo no meio da rodovia; a despedida de solteiro do amigo que de tanto que já ouvi repetidamente os detalhes, às vezes acho que eu também estava lá; a viagem para o casamento do outro amigo no interior do Paraná como padrinho - a primeira vez que usei um terno. – Você nunca esteve tão bonito!

A imagem do amigo músico tocando violão pela primeira vez em volta de uma fogueira improvisada, que ia a show fora do estado só com o dinheiro de ida e vendia camisetas para a comida e a volta, a lembrança do dia que fomos apresentados por um amigo meu que era amigo de infância dele e a descoberta que já o conhecia pelo adereço que usava na cabeça: - Cara, eu conheço esse boné!

A primeira vez da menina do Rio entre nós e a estranheza e os risos que causou ao de repente começar pular e cantar para logo se explicar: - Ué gente, olha a placa, estamos na Rua da Alegria. Os nossos telefonemas de madrugada e minha mãe me repreendendo do quarto: - Olha a conta... Desliga o telefone e vai dormir menino. Mas a gente queria sempre mais.

Às vezes é tão cansativo tentar lembrar, mas nenhum inverno possui o mesmo sabor sem que sejam recontadas algumas das histórias mais importantes de nossas vidas. O amor ainda mora ao lado.

Eu queria poder contar a história de cada um deles sob a minha visão sempre estreita e amplificada, ingênua e romanceada de como as coisas aconteceram, de como conheci cada um lá atrás, no auge de nossas descobertas e inocência. Mas a memória não é mais a mesma e o espaço aqui não seria suficiente para detalhar os campos indefinidos e indecifráveis da paixão.

Acho que sinto assim porque é julho. O mês em que alguns inocentes e sonhadores jovens se conheceram e ficaram... De repente... Como dizer?

- AMIGOS.

Há um cheiro aveludado no ar de saudade guardada.

Jânio Dias

sábado, 12 de julho de 2008

Le Scaphandre et le Papillon

imagem: The Red Sphinx, de Odilon Redon


“Sometimes I feel like I don't know
Sometimes I feel like checking out.
I wanna get it wrong
Can't always be strong
And love, it won't be long.”

U2, em Ultraviolet (Light My Way)
'
'
Ele está sentado em sua cadeira de frente para o mar. Há um vento forte e frio que passa por ali. Está bem agasalhado e com o corpo coberto por mais de uma manta. A praia está deserta, há apenas ele, a ex-esposa, os filhos e gaivotas no céu que parecem procurar outra estação. As crianças estão brincando incansavelmente na areia, a ex-esposa dividindo seus cuidados e preocupação entre ele e os filhos. As gaivotas são um rastro rápido no azul do céu que deixou de ser infinito.

Seu olhar parado e aparentemente sempre perdido, ora seguindo o circulo da passagem dos movimentos infantis, ora admirando o carinho contemplativo da ex-esposa, tem atenção especial para as ondas que vão e retornam em sinfonia rítmica. Parecem levá-lo em mente e espírito às lembranças mais raras e ricas de sua vida, às lembranças dos mais belos sonhos não vividos quando criança, dos momentos mais intensos realizados quando adulto.

Em suas andanças pelos caminhos desnivelados da memória, há entre tantas paradas e comitivas emocionais, a visita surpresa à mulher amada ainda inconsciente pelo sono. O toque gentil em seu rosto, o arrumar cuidadoso dos cabelos, o beijo carinhoso sobre as pálpebras adormecidas. O mergulho para debaixo do cobertor da amada sem tirar as roupas, o encontro com seu corpo nu e quente. A saída correndo para a praia como dois velocistas apostando corrida para ver quem se molharia primeiro. A queda sobre a água morna da manhã, o rolar abraçado a ela sobre a areia como se fosse o Marlon Brando em “A Um Passo da Eternidade”.

Há os dias de sol mais felizes envolto com as crianças, os passeios de carro em meio ao verde e as montanhas francesas, os cabelos esvoaçantes dos filhos sentindo o vento como parte imediata da vida, as tardes nubladas de sábado com as cores mais vivas que um dia poderia ter. As brincadeiras de rodar no ar como pião descontrolado mas equilibrado sobre o chão, o levantar vôo com a tontura dos giros, o largar do corpo na confiança de que o pai estará do lado certo no momento da queda. O amparo irremediável para as dúvidas e as certezas que só os filhos têm.

As visitas ao pai já velhinho e com dificuldade de andar, com dificuldades de lembrar o pensamento articulado nos últimos quinze segundos. A facilidade de fazer graça com o início do alzheimer, a facilidade de sorrir para os amores que existiram e não serão esquecidos, a graça da dureza de não admitir ser barbeado pelo próprio filho. A delicadeza da certeza de ainda ser o mais belo dos homens barbeados.

O passeio solitário de madrugada por ruas de um bairro mexicano. As luzes de néon convidando para entrar e viver o azeite e o escorregadio da perdição, seguir reto e encontrar a esquerda uma vitrine gigante com a imagem de Lourdes. Observá-la atentamente como se de repente a fé surgisse e fosse possível passar a acreditar. Como se naquele momento surgisse uma espécie de redenção, como se fosse possível pedir um mínimo de conforto para os dias ainda mais difíceis que surgirão. Como que seu espírito fosse ali liberto do escafandro em que vivia e passasse a voar lépido como borboleta. Para ele a crença na fé dependia da existência comprovada de milagres. E sua vida não era um milagre.

Seus dias sempre haviam sido ricos em disposição atlética, em energia melódica, em beleza intensa. Seus dias tinham o brilho rasgante dos raios do sol por entre as cópulas das árvores. Seus dias tinham o fogo ardente da terra do nunca. Seus dias tinham cores do espírito santo.

Mas numa tarde de sábado nublado e feliz, um acidente cardiovascular deixou-o sem movimentos, sem sentidos. Cabeça, boca, mãos, dedos, pés, nada está lá. Ou todos estão lá. O coração bate, seus pulmões aspiram e espiram. Sua capacidade intelectual está intacta. Compreende, fica bravo, triste; sente saudade, remorso, tem senso de humor e gostaria de seduzir a fisioterapeuta. Mas seu tronco cerebral foi desconectado. Nenhuma reação a estímulos, nenhuma expressão facial. Nem sorriso de bom dia, nem lágrima de alegria. Nem o olho direito. Apenas o esquerdo.

Ele se comunica com o olho esquerdo. Uma piscadela para sim, duas para não. Dita para uma assistente a história de sua vida através de movimentos com a pálpebra esquerda.

Ele diz o que quer a quem ama com um piscar de olho.

Jânio Dias

quinta-feira, 3 de julho de 2008

The Constant

imagem: Score sheet of 'Moonlight Sonata', de Ludwig van Beethoven


“Enquanto for... um berço meu
Enquanto for... um terço meu
Serás vida... bem vinda
Serás viva... bem viva
Em mim”

"Os opostos se distraem
Os dispostos se atraem"

O Teatro Mágico, em Realejo


Sempre que eu lembro de você, um cheiro de mar agitado e gentil invade a sala.

Eu ainda era tão pequeno quando era obrigado a ouvir por tabela a rádio AM que minha mãe sintonizava, ainda era tão cru como ser assistindo a televisão no sábado a tarde o programa daquele sujeito que jogava bacalhau no público, e via meu pai olhar aquelas mulheres que dançavam alegremente e o faziam sorrir como que se algo acontecesse dentro dele, como se elas despertassem alívio para a semana de trabalho que havia passado, e você lá, do outro lado, com sua voz feroz e lírica, cheio de energia e ideais expondo seu talento e já algumas contradições do seu gênio para um público incapaz de entendê-lo.

E eu do lado de cá, na sala de casa enquanto minha mãe passava o pano de chão na cozinha e meu pai se deleitava no sofá com algo que só agora entendo (ou um pouco mais de tempo depois passei a entender), curioso com aqueles movimentos descompassados do seu corpo, com aqueles óculos que deixavam seus olhos flamejantes tão pequenos, com aquela fúria que invadia a sala e me fazia sorrir sem entender por que sorria.

Ainda um tanto pequeno, adorava observar seu discurso quando o apresentador do programa alternativo na outra emissora vinha lhe questionar sobre o futuro da nação. Era tão racional, político e incendiário, parecia que fagulhas saiam da sua boca e atiçavam o senso adormecido de justiça dos jovens daquela época.

Eu te ouvia no rádio como se fossem dois artistas diferentes abordando assuntos semelhantes. Sua voz me parecia tão distinta naquela outra canção que eu era capaz de apostar com quem quisesse que você, não era você. Eu não admitia que você fosse capaz de falar de colonização e paixão na mesma canção, não acreditava que você falaria de medos e outros sentimentos de forma tão... digamos, desnuda. Um pensador essencialmente político não seria capaz de amar de maneira tão explicita. Demorei a entender que desde sempre tudo o que você falava remetia a algo maior.

Já um pouco mais crescido, ficava fascinado com o encarte do vinil nas mãos. Eram os livros de poesia que eu não entendia traduzidos. Cada letra da canção era lida e repetida de olhos fechados até que fosse possível cantá-las antes que você saltasse da vitrola. Cada verso era rabiscado no caderno da escola como se houvesse ali a essência de todo aprendizado. A professora de português que tocava violão e colocava versos seus para interpretá-los, além de a mais bonita, era também a única e mais importante.

A menina linda de 16 anos que vestia uma camiseta branca de manga longa com o logotipo do fã-clube estampado sobre o coração, quando subia a rua do condomínio carregando embaixo dos braços os discos do Smiths (que você tanto adorava e tinha como referência e inspiração), fazia o coração disparar em desespero mudo. A língua ficava paralisada só de olhar para ela. Quando ela falava meus olhos mergulhavam em suas palavras e as roubava para mim. Sugava sua sabedoria sobre você e sua obra como se devorasse um livro religioso, como se aprendesse nela através de você um pouco mais sobre o sentido de existir.

A primeira vez que fiz uma entrevista de emprego misturei dezenas de frases de suas canções no texto. O entrevistador ignorante disse que minha redação era quase um poema, mas o outro candidato à vaga era mais objetivo. Fiquei feliz com o quase. Passei a brincar ainda mais com seus versos que já eram quase meus.

A minha primeira namorada não concordou que eu fosse sem ela a um show seu. Acho que ela não entendia a paixão, e disse: “ou eu ou o show”. Fiquei sem namorada e tive a primeira grande realização da minha vida. O mundo se mostrou mais interessante e acolhedor naquela noite em Sorocaba.

Você não tem a mínima idéia, mas conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida porque elas também gostavam e tinham o mesmo interesse em você. Quando você estava mais presente, eles eram muitos. Hoje são poucos, mas essencialmente raros em beleza. São amigos que quando se encontram brilham o suave da poesia e o amargo do tempo. Assim como você costumava se comportar com os seus: doce e ácido, displicente e generoso em sua diversidade.

Aquela vez que eu lhe escrevi, você quis saber mais sobre mim. Minha timidez e nossa distância não permitiram que nos encontrássemos. Mesmo assim senti-me feliz e orgulhoso com o interesse, afinal, aquela carta o criticava, mostrava-me decepcionado com suas atitudes, irritado e triste com o seu comportamento naquele último show, exatamente o oposto de quem não admite as falhas e evita enxergar criticamente seu ídolo; exatamente o comportamento oposto do artista que se acostumou a viver rodeado de jubilo. Aquela carta mostrou que minha fé em você seria uma constante.

Desde que você se foi, eu vivo meus dias em busca de uma nova descoberta, uma nova perspectiva, uma nova equação diferencial e exata. Uma nova constante. Algo que possa ser a diferença entre o que se passou e iluminar o insosso do hoje. Algo que traga o despertar do novo com poesia e sabedoria. Algo que crie harmonia e alimente a inteligência dos meus vestígios.

Eu tenho você como lembrança rara de tudo que aprendi, de tudo que eu poderia ser. Eu tenho você como mensagem verdadeira para o que devo fazer quando a luz se afasta dentro do túnel. Eu tenho você como garantia da vida que adormeceu por segundos antes das seis. Eu tenho você como forma de amor que não dilui com a saudade ou a tempestade. Eu tenho você como a menor distância entre o fechar dos olhos e o apertar das mãos.

E sempre que eu lembro de você, meus olhos viram mar que invade a calçada, mas não transbordam mais.

Jânio Dias

quinta-feira, 26 de junho de 2008

El Amor Después Del Amor

imagem: La Belle Dame Sans Merci, 1926, de Frank Cadogan Cowper


“Tem riso que parece choro,
tem choro que é pura alegria
Tem dia que parece noite
e a tristeza parece poesia
(...)
Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais”

O Teatro Mágico, em
Sonho de Uma Flauta



O que vem depois de um dia de sol escaldante? Ou depois de uma noite quase congelante? O que vem depois do cobertor ou da tatuagem?

O que vem depois da palavra ou do afago? Do fogo ou da lágrima? O que vem depois da angústia ou da insônia?

O que vem depois da curva rápida, ou uma rua sem saída? Ou depois do tropeço no pedregulho, ou do buraco na calçada? O que vem depois da sirene ou dos faróis?

O que vem depois do olho no retrovisor?

O que vem depois da sina ou da malícia? Da caça ou da captura? O que vem depois da ciranda ou do pega-pega?

O que vem depois do soluço, ou do afogamento? Da cobrança ou da desculpa? O que vem depois do pedido ou do perdão?

O que vem depois do nó na garganta ou do olhar desviado? Da trégua ou do reencontro? O que vem depois da saudade ou da despedida?

O quem depois da chuva ou do arco íris?

O que vem depois do remédio ou da lição? Do som ou da fúria? O quem vem depois da fonte ou da inspiração?

O que vem depois da entrega ou da fuga? Da rede ou do vento? O que vem depois do olhar ou da memória?

O que vem depois da carne ou da febre? Do óbvio ou do ódio? O que vem depois do suspiro ou da encenação?

O que vem depois do silêncio?

O que vem depois da vontade ou da luta? Da caminhada ou do parque? O que vem depois do salto ou dos pés no chão?

O que vem depois da tristeza ou da inocência? Do riso ou dos lábios? O que vem depois do escuro ou da resignação?

O que vem depois do abraço ou da mordida? Do alarme ou da chegada? O que vem depois da fome ou do desejo?

O que vem depois da tarde ou do beijo?

O que vem depois do deserto ou do agreste? Da sede ou do açude? O que vem depois da aspereza ou da ferrugem do portão?

O que vem depois dos quadros ou da rachadura na parede? Da pintura ou da escavação? O que vem depois da campainha ou do telefone?

O que vem depois da chave ou da porta? Da janela ou da fenda? O que vem depois do telhado ou da lua?

O que vem depois do número da casa?

O que vem depois do alarde ou do descanso? Da bebida ou da música, da tontura ou da ausência? O que vem depois do vômito ou da descarga?

O que vem depois da maré ou da bonança? Da poeira ou do gol, do grito ou da oração? O que vem depois da primavera ou da esperança?

O que vem depois do colo ou do medo? Das cores ou da leveza, do gosto ou da respiração? O que vem depois da dança ou da dúvida?

O que vem depois do esquecimento ou da imaginação?

O que vem depois da resposta ou da contradição?

Vem o doce, o salgado e o azedo. A lembrança indecisa do que ficou. Uma brisa suave e imprecisa do que é o amor.

Jânio Dias

terça-feira, 17 de junho de 2008

Rafaela, 15 anos

escrito por Jânio Dias
'
imagem: fotos arquivo família; sobreposição por Jânio Dias



“Quando você sorri pra mim
Parece que o mundo não é um lugar tão ruim”

Capital Inicial, em Giulia



Rafaela,

Não é exagero para nós afirmarmos que a notícia da sua chegada nesse mundinho recheado de complexidades criadas pelo próprio homem foi um ponto de divisão entre o antes e o que se seguiu depois em nossas vidas. Foi como luz que revelou sentidos que ainda não conhecíamos, foi como chuva leve em dia de verão que tem o arco íris como fundo e beleza.

Aquele bebê rosa de olhos genuinamente azuis e sem cabelos fez muitos de nós chorarmos a alegria de uma nova existência, fez todos nós celebrarmos a magia de um novo amor.

Egoístas que somos, desejávamos que você não crescesse logo para que continuasse a alimentar nossos mimos e lembranças do tempo em que a inocência também era nossa companheira.

Altruístas que não somos, sempre recebemos mais de você do que fomos capazes de lhe dar.

Bem que tentamos nos esforçar para que você fosse uma criança educada e de bons modos.

Tentamos, em vão, que todos saibam agora.

Porque nossas tentativas eram sempre antecipadas a algum gesto de carinho inerente a sua natureza, a alguma graça carregada de meiguice e beleza. Sempre o bebê mais educado, o mais fofo, o mais belo.

Você nos deu o trabalho doce de acompanhar o seu crescimento.

15 anos se passaram e os elementos daquela criança com olhos de aniz e cabelos radiantes como raios da luz do sol continuam presentes despertando atenção e provocando encanto por onde passe.

Hoje não é só mais uma festa de aniversário. Hoje é a nossa recordação do dia em que você veio ao mundo.

É você que faz o aniversário, mas somos nós, sua Família e amigos que recebemos o presente.

O presente diário da sua existência.

Feliz Aniversário!

Com amor,

Sua Família.