quinta-feira, 26 de junho de 2008

El Amor Después Del Amor

imagem: La Belle Dame Sans Merci, 1926, de Frank Cadogan Cowper


“Tem riso que parece choro,
tem choro que é pura alegria
Tem dia que parece noite
e a tristeza parece poesia
(...)
Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais”

O Teatro Mágico, em
Sonho de Uma Flauta



O que vem depois de um dia de sol escaldante? Ou depois de uma noite quase congelante? O que vem depois do cobertor ou da tatuagem?

O que vem depois da palavra ou do afago? Do fogo ou da lágrima? O que vem depois da angústia ou da insônia?

O que vem depois da curva rápida, ou uma rua sem saída? Ou depois do tropeço no pedregulho, ou do buraco na calçada? O que vem depois da sirene ou dos faróis?

O que vem depois do olho no retrovisor?

O que vem depois da sina ou da malícia? Da caça ou da captura? O que vem depois da ciranda ou do pega-pega?

O que vem depois do soluço, ou do afogamento? Da cobrança ou da desculpa? O que vem depois do pedido ou do perdão?

O que vem depois do nó na garganta ou do olhar desviado? Da trégua ou do reencontro? O que vem depois da saudade ou da despedida?

O quem depois da chuva ou do arco íris?

O que vem depois do remédio ou da lição? Do som ou da fúria? O quem vem depois da fonte ou da inspiração?

O que vem depois da entrega ou da fuga? Da rede ou do vento? O que vem depois do olhar ou da memória?

O que vem depois da carne ou da febre? Do óbvio ou do ódio? O que vem depois do suspiro ou da encenação?

O que vem depois do silêncio?

O que vem depois da vontade ou da luta? Da caminhada ou do parque? O que vem depois do salto ou dos pés no chão?

O que vem depois da tristeza ou da inocência? Do riso ou dos lábios? O que vem depois do escuro ou da resignação?

O que vem depois do abraço ou da mordida? Do alarme ou da chegada? O que vem depois da fome ou do desejo?

O que vem depois da tarde ou do beijo?

O que vem depois do deserto ou do agreste? Da sede ou do açude? O que vem depois da aspereza ou da ferrugem do portão?

O que vem depois dos quadros ou da rachadura na parede? Da pintura ou da escavação? O que vem depois da campainha ou do telefone?

O que vem depois da chave ou da porta? Da janela ou da fenda? O que vem depois do telhado ou da lua?

O que vem depois do número da casa?

O que vem depois do alarde ou do descanso? Da bebida ou da música, da tontura ou da ausência? O que vem depois do vômito ou da descarga?

O que vem depois da maré ou da bonança? Da poeira ou do gol, do grito ou da oração? O que vem depois da primavera ou da esperança?

O que vem depois do colo ou do medo? Das cores ou da leveza, do gosto ou da respiração? O que vem depois da dança ou da dúvida?

O que vem depois do esquecimento ou da imaginação?

O que vem depois da resposta ou da contradição?

Vem o doce, o salgado e o azedo. A lembrança indecisa do que ficou. Uma brisa suave e imprecisa do que é o amor.

Jânio Dias

terça-feira, 17 de junho de 2008

Rafaela, 15 anos

escrito por Jânio Dias
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imagem: fotos arquivo família; sobreposição por Jânio Dias



“Quando você sorri pra mim
Parece que o mundo não é um lugar tão ruim”

Capital Inicial, em Giulia



Rafaela,

Não é exagero para nós afirmarmos que a notícia da sua chegada nesse mundinho recheado de complexidades criadas pelo próprio homem foi um ponto de divisão entre o antes e o que se seguiu depois em nossas vidas. Foi como luz que revelou sentidos que ainda não conhecíamos, foi como chuva leve em dia de verão que tem o arco íris como fundo e beleza.

Aquele bebê rosa de olhos genuinamente azuis e sem cabelos fez muitos de nós chorarmos a alegria de uma nova existência, fez todos nós celebrarmos a magia de um novo amor.

Egoístas que somos, desejávamos que você não crescesse logo para que continuasse a alimentar nossos mimos e lembranças do tempo em que a inocência também era nossa companheira.

Altruístas que não somos, sempre recebemos mais de você do que fomos capazes de lhe dar.

Bem que tentamos nos esforçar para que você fosse uma criança educada e de bons modos.

Tentamos, em vão, que todos saibam agora.

Porque nossas tentativas eram sempre antecipadas a algum gesto de carinho inerente a sua natureza, a alguma graça carregada de meiguice e beleza. Sempre o bebê mais educado, o mais fofo, o mais belo.

Você nos deu o trabalho doce de acompanhar o seu crescimento.

15 anos se passaram e os elementos daquela criança com olhos de aniz e cabelos radiantes como raios da luz do sol continuam presentes despertando atenção e provocando encanto por onde passe.

Hoje não é só mais uma festa de aniversário. Hoje é a nossa recordação do dia em que você veio ao mundo.

É você que faz o aniversário, mas somos nós, sua Família e amigos que recebemos o presente.

O presente diário da sua existência.

Feliz Aniversário!

Com amor,

Sua Família.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sobre O Teatro Mágico, de Fernando Anitelli

por Jânio Dias
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imagem: arquivo pessoal


“Sem horas e sem dores / respeitável público pagão / a partir de sempre toda cura pertence a nós / toda resposta e dúvida / todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser / todo verbo é livre para ser direto ou indireto / nenhum predicado será prejudicado / nem tampouco a crase, nem a frase, nem a vírgula e ponto final! / afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas / e estar entre vírgulas pode ser aposto / e eu aposto o oposto que vou cativar a todos / sendo apenas um sujeito simples / um sujeito e sua oração / sua pressa e sua prece / que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não / que enxerguemos o fato / de termos acessórios para nossa oração / separados ou adjuntos, nominais ou não / façamos parte do contexto / sejamos todas as capas de edição especial / mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante / sejamos também a contra-capa / porque ser a capa e ser a contra-capa / é a beleza da contradição / é negar a si mesmo / e negar a si mesmo / é muitas vezes, encontrar-se com Deus / com o teu Deus / sem horas e sem dores / que nesse momento que cada um se encontra aqui agora / um possa se encontrar no outro, e o outro no um / até porque... / tem horas que a gente se pergunta... / por que é que não se junta tudo numa coisa só?”

O Teatro Mágico, em Sintaxe à Vontade, de Fernando Anitelli



Um vento leve havia soprado o nome aos cílios da novidade, um link no blog da
menina-cabeça-de-liquidificador havia despertado a atenção dos olhos curiosos, uma matéria sobre fãs fanáticos no guia de cultura do jornal provocou um sussurro ao pé da sobrancelha. Era preciso visitar a magia, conhecer seus efeitos, mas eu só encontrava os rastros desfeitos de quem já a conhecia, e por isso sabia que era preciso estar atento as datas e locais do acontecimento. As entradas são para raros.

Quase duas dúzias de meses depois, em uma das últimas apresentações do 1º ato, os olhos puderam descansar felizes, inteiramente sorridentes.

O relógio piscava 0h48 de domingo, 08 de junho, Mogi da Cruzes, SP, quando a mágica apagou as luzes para acender o canto de milhares de vozes em uníssono. Duas horas antes, parado na calçada esperando que os carros deixassem que fosse possível atravessar para o outro lado da rua para entrar no Clube de Campo, uma menina que aparentemente não era da cidade, explicava ao garoto aparentemente da cidade, num misto de segredo e mistério, que O Teatro Mágico era uma cartola gigante de onde saltavam os personagens que alimentavam seus sonhos mais coloridos. Fiquei alguns longos e indecifráveis três segundos parado olhando para a menina, mais olhando do que tentando entendê-la, quando fui puxado para atravessar a rua.

Se eu pudesse compartilhar o gosto impreciso da minha saliva com ela, lhe diria que O Teatro Mágico é um hospício que hospeda a tristeza risonha dos dias que esquecemos no amanhã, para nos doar a beleza do agora.

É felicidade que inventa a mentira que queremos viver, é verdade que lembramos de contar nos dedos da manhã. É alegria que inverte o sentido da maquiagem do rosto, é lagrima que rejuvenesce as linhas do tempo.

É loucura que transborda a sensatez do pranto, é delírio que desperta a inconsciência do riso descontrolado. É a sanidade de quem reencontrou o mar.

É canto que seduz a menina virgem, é texto que encanta a menina experimentada, é melodia que desacredita o rancor do velho senhor. É teatro que estreita a distância entre os parágrafos.

É infância revisitada com bolinhos de chuva na cozinha da avó, é café com leite em manhã que não teve aula. É beijo na bochecha do irmão mais novo quando estava dormindo, é ser beijado pelo irmão mais velho e fingir que estava dormindo.

É levar a sobrinha para passear com a motinha na pracinha da cidade e insistir pra ela pedalar, quando o mais bonito é vê-la empurrar o próprio brinquedo. É perder-se cantando junto quando o mais belo é apreciar o restante do público cantar em harmonia desesperada.

É enlevar o rosto borrado nos caminhos mais trôpegos, é encenar o riso quente nas curvas do precipício, é encarar a queda sem colocar a mão no nariz. É encandear os pensamentos nas alegrias que virão.

É estender as mãos para as singularidades do acaso. É acordar o dia seguinte com confiança guardada no peito. É abranger a prece para o amigo do lado.

É acenar a boca molhada de desejo para a fruta nua sobre a mesa.

É fomentar a independência da nossa imaginária liberdade.

São acordes luminosos no fogo de cordel encantado. É romantismo carnavalesco entre hermanos e lirismo revolucionário de uma legião.

É poesia que faz da arte lençóis que cobrem multidões; é prosa que inventa arte nas multidões descobertas.

É aceitar a partida sem pressa, de bicicleta; é acertar a chegada sem calma, a cavalo.

O Teatro Mágico é a esperança que não me acompanhava.

Jânio Dias


PS.: thanks Veneza, por proporcionar o encontro do desejo à magia.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Entre Uma Coisa e Outra Coisa

The Clown, de John Wright


“Eu sou o Poderoso, o Bababã,
o Bão! Eu sou o sangue,
não!Eu sou a Fome! do homem
que come na brecha da mão de quem vacila
Eu sou a Camuflagem que engana o chão
A Malandragem que resvala de mão em mão
Eu sou a Bala que voa pra sempre, sem rumo, perdida”

Lobão, em
El Desdichado II
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Em tempos em que o tema ética só aparece em aula de sociologia ou de história, e que programas de humor (veja bem, de humor) na tv fazem "pegadinha" com pessoas na rua onde dão o troco a mais na venda do cigarro ou deixam um aparelho de celular em algum lugar para testar se a pessoa que recebeu o dinheiro a maior ou encontrou o objeto irá devolver ou não, e 99% não devolvem, fingem estar longe ou serem esquizofrênicas, inventam histórias absurdas para não devolver, e quando são questionados pela equipe do programa da tv se achassem alguma coisa na rua se devolveriam para o dono, e descaradamente dizem que sim, mas segundos atrás haviam agido de forma oposta, ou chegam a dizer que este tipo de questionamento está sendo feito no país errado... Respiro fundo, conto carneirinhos imaginários, sinto vontade de ir embora para as Ilhas Maurício, e lembro que todos os dias o brasileiro passa e provoca desapercebidamente consciente por testes e exemplos de sua ignorância ética, sejam na fila do banco ou do metrô, na vaga do estacionamento reservada para deficientes físicos, no farol vermelho ou quando é parado pela polícia na estrada e a mesma sugere um "jeitinho" para se seguir viagem. Então meu senso comum desperta, grita comigo e aos berros soletra em silabas garrafais que isso só acontece porque estamos diariamente colocando em prática o reflexo da personalidade dos políticos que elegemos. Somos assim como eles e eles assim como nós; são nossa imagem e semelhança.

Vai um nariz de palhaço aí, amigo?

Dia desses, após presenciar um show muito aguardado de uma especial banda de indie rock, fui ler as impressões dos fãs numa comunidade do Orkut. Havia vários depoimentos entusiasmados que iam de encontro ao que eu estava sentindo. Porém, um deles – não menos entusiasmado – entre a alegria e o sentimento de “espertalhão”, contava os detalhes de uma falcatrua para burlar a segurança do local e assim poder se passar por integrante da imprensa, e as peripécias vividas graças a essa fraude.

O trapaceiro cheio de júbilo contou:

“Eu e meu brother, fizemos uma credencial do "Terra" falsa, como se nós fossemos da imprensa....e detalhe, entramos VIP (...)”

“(...) corremos lá pra frente e só mostramos o crachá, o segurança, panção, viu o crachá e liberou... daí então, eu assisti o show inteirinho, literalmente na frente do Palco. (...)”

“Não contente com a credencial VIP dos VIPS, tentamos subir no palco, fomos por trás do palco, mostramos a credencial pro segurança... ele olhou e pediu pra gente subir ..... nooooooooooosssa, pegamos o finalzinho do show, vendo do paaaaaaaalco (...)”

“Foi bem legal... no meu álbum eu coloquei a credencial do "Terra" que eu fiz.... hahahaha, ficou legal vai gente... quem vai dizer que é falsa???”

Achei, digamos, bonito o entusiasmo do rapaz. Eu sei muito bem como é a sensação de sentir bem de pertinho uma banda querida e especial. Então, dirigi algumas palavras logo abaixo de vários comentários que festejavam com admiração a atitude esperta daquele que deu uma banana para milhares de pessoas, inclusive centenas de participantes daquela comunidade que haviam ido ao show.

“Gabriel, admito que entendo perfeitamente sua alegria radiante e a necessidade de dividir momento tão mágico com os outros fãs. (...) E por ser real, por realmente ter acontecido, você deve e merece se sentir muito feliz com isso, e dividir com todos que possa.

Contudo, cabe aqui lembrar que, muita gente tão ou mais fã da banda que você, sofreu muito para conseguir comprar o ingresso de R$ 100,00 ou mesmo meia entrada para estar entre os "comuns", aqueles que se acotovelaram e disputaram espaços minúsculos entre umas vinte mil pessoas. Fãs mais ardorosos fizeram loucuras para comprar ou ganhar ingresso na privilegiada área vip. (...)

Então, cara, sem querer diminuir o sentido da sua alegria, acho que é muito mais bacana se sentir um privilegiado, sortudo e um cara muito feliz, sem ter que precisar de certos artifícios, como adulteração de um documento. Devemos ter a exata noção que aquela separação entre vip's e "comuns" já é algo muito injusto, e que a felicidade por vivenciar um momento tão grandioso e histórico (como foi histórico aquele show) pode acontecer de forma bem mais justa, correta e digna.”

Algumas pessoas concordaram comigo, outras acharam que eu estava querendo aparecer.

O garoto da credencial falsa reagiu assim:

“Janio, com certeza sei que ali naquele Show estava exposto da forma mais suja possível, a desigualdade social no Brasil, não é a toa que nós estamos entre os últimos no Ranking de Desigualdade Social.

Os Ricos e Famosos, ganharam o espaço mais priveligiado do SHOW, na boca do palco, sem tumulto, sem aperto... A Galera que curtia a banda mesmo, ficou num total desconforto, segundo relatos que eu li, amassadas na grade, na ponta dos pés etc.

Quando li, que pra estar na área VIP, era preciso R$ 250... eu dei risada, e pensei comigo mesmo em casa "E se eu Burlar este sistema fédido"... Criei a credencial, e enfim curti o Show tanto, ou muito mais do que eles... os VIPs. Pq somente os ricos tem o direito de serem VIPs? Eu um pobre mortal, tenho de aceitar minha situação de ser esmagado numa grade, só pq eu não tenho dinheiro?... seria uma punição pela minha pobreza?

O João, matô a pau, qdo disse: "Vc nunca baixou uma música pelo Kazaa?", se vc já puxou meu amigo, não me venha todo emburradinho, falar que eu estou errado.

Janio, enquanto existirem caras como você, que ajudam a fortalecer a Elite, com esse discursinho Politicamente Correto, típico da Elite, o Brasil será essa Bosta. Temos que mostrar para os mais abastados, que estamos dispostos a comer o frango deles, a invadir o cirquinho deles e a quem sabe um dia.... nivelar a sociedade. NÃO ACEITO SER AMASSADO PQ NÃO TENHO DINHEIRO... se isso pra vc, é ser ético, sinto-lhe informar, mas os valores burgueses correm ferozmente em suas veias.

Não Seja Hipócrita.”


E eu respondi:

“Muito bem. Então é isso? Bom, como diria o filósofo do botequim: "uma coisa é uma coisa; outra coisa, é outra coisa". Ou como diria minha saudosa professora Odete da quarta série: "Uma coisa é saber ler; outra coisa é compreender o que foi escrito".

Uma coisa é saber o significa "desigualdade social no Brasil". É conhecer e ser tratado em hospital público, é não ter condições nem de freqüentar a escola pública, é saber como milhões de nordestinos sobrevivem com três refeições por semana... Outra coisa é afirmar que naquele show "estava exposto da forma mais suja possível a desigualdade social no Brasil". Só estava ali quem realmente gosta do que ia acontecer ali, só quem tem meios econômicos-sociais de acesso àquele tipo de cultura estava naquele lugar naquela noite. No mais, estavam ali jornalistas, artistas, gente do meio cultural em geral, convidados especiais e funcionários do evento. Apesar dos "ricos e famosos ganharem o espaço mais privilegiado dos shows", isso não reflete desigualdade social, e sim uma opção inapropriada e injusta dos organizadores do evento em criar uma espécie de Apartheid musical. Quem vive realmente o drama da "desigualdade social no Brasil", estava em outros lugares e com outras preocupações.

Uma coisa é se indignar com o valor do ingresso absurdamente caro e pensar numa forma inteligente de não aceitá-lo como boicote ao evento, ou criar honestamente condições próprias para aceitá-lo, como contou um rapaz num outro tópico (Vitor, no tópico Falando Francamente). Diz ele que ficou um mês sem sair de casa para juntar o total de R$ 100,00 para a área vip (provavelmente ele foi atrás do desconto de estudante e outras possibilidades), ou ligar insistentemente numa rádio e ganhar o convite. Outra coisa é fraudar documento oficial para ter acesso aos shows.

Uma coisa é uma mente preguiçosa achar que só os ricos têm o direito de serem vip's; outra coisa é a constatação através de relatos como o do Vitor de que qualquer pessoa que tivesse realmente se esforçado para estar ali, poderia ter estado.

Uma coisa é alguém que possui estrutura material e intelectual para forjar um documento oficial se considere "um pobre mortal"; outra coisa é esse mesmo alguém alegar falta de dinheiro e justificar numa possível "pobreza" a motivação para a fraude documental.

Uma coisa é achar que um cara como eu, que expõe uma opinião contrária ao comportamento de alguém que - em primeira e gentil análise - não quer tirar a bunda da cadeira e fazer as coisas acontecerem honestamente, é um representante da elite brasileira. Representar a elite brasileira é - em última e cruel análise - defender atos criminosos como o seu.

Uma coisa é pensar e agir burramente que se está fazendo justiça ao "invadir o cirquinho deles"; outra coisa tão burra quanto é misturar valor moral e ético com padrões burgueses - é o mesmo que misturar água com óleo.

Uma coisa é fazer de conta que achou o cérebro num cesto de lixo e comparar troca online de arquivos digitais com a falsificação de documentos. Uma coisa é o cara que sobrevive da venda de produtos piratas; outra coisa é o cara que falsifica um diploma de medicina e faz uma cirurgia num parente seu. Uma coisa é o cara que compra um DVD pirata na barraquinha; outra coisa é o cara que compra a carta de motorista e vai dirigir uma lotação. Uma coisa é o imigrante ilegal trabalhando num país; outra coisa é o cara que falsifica o passaporte para roubar no seu país. Uma coisa é não saber distinguir atitude de pose e exibicionismo. Uma coisa sou eu me expor publicamente sobre algo que você deveria ter aprendido no jardim de infância. Outra coisa é a pessoa que não possui credibilidade pra dizer o que pensa porque assina como anônimo.

E para concluir, ontem eu vi um outdoor gigante na Paulista que é a foto de um senhor, provavelmente pelas feições, um bravo retirante nordestino, alguém que realmente sofre e vive a desigualdade social no Brasil, com meia dúzia de dentes na boca, mas com um sorriso inacreditável de felicidade... Aí eu pensei: "uma coisa é defender a prática de um crime para ser mais feliz; outra coisa é ser feliz com os dentes que se têm.”

Entre uma coisa e outra, vou vivendo assim, como palhaço desse circo sem futuro.


Jânio Dias

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Longe Dela

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imagem: Venus and Anchises, 1889-90, de Sir William Blake Richmond


“Diga a ela que me viu na rua
Que eu caminhava muito devagar
Que eu olhava para todos para enxergar
Tanto espaço dentro de mim”

Nenhum de Nós, em Diga a Ela

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Toda vez que minhas letras insistem em não manchar o papel, minha existência estremece os sentidos. Minha voz fica rala, meus olhos ficam enviesados, minhas opiniões tornam-se frágeis. Meus pensamentos dispersam no ar como bocejos. Minhas palavras são aspiradas para dentro de boca fechada, desaparecem sufocadas na garganta. Engulo lagartas que não viram borboletas.

Quando paro de escrever é porque a vida abafou meu grito sem saudação. Escureceu meu encanto, secou minhas motivações.

Quando paro de escrever é porque minha boca curvou-se ao silêncio dos olhos e fez sigilo de minha solidão.

Quando paro de escrever é porque deixei de ser compreendido entre o limite da realidade pessoal e o da ficção social. Minha verdade é opor-se ao que é real sem deixar de sentir a imaginação. O que invento é parte insólita do que sou. Minhas mentiras têm intenção de impulsionar a roda da dúvida. Minhas memórias são expressões lúdicas e ácidas dos dias que virão. Minha criação imaginosa quer ser borboletas literárias no céu.

Quando paro de escrever é porque a amizade sangrou sua capacidade de resistir. O vinho que reuniu velhos amigos tem gosto de suco de morangos azedos. A amizade debilitada mastiga vidro vermelho.

Quando paro de escrever é porque me desprendi do compromisso de ser fiel comigo mesmo. Paro de expor o que sinto para procurar nos lábios de outras letras a ternura de ser sentido. Paro de inventar desejos subjuntivos para me entregar às luxúrias de outras visões.

Quando paro de escrever é porque meu interesse pela pornografia virou vício incontrolável. Minha dependência é cura para o que não sou mais capaz de realizar. Minha capacidade de autoflagelação é insaciável.

Quando paro de escrever é porque o ciúme sobrepôs o amor com luvas escorregadias carregadas de espinhos. Quebrou os pratos que alimentavam a confiança. Furou os balões que mantinham suspenso a liberdade.

Quando paro de escrever é porque a vida extraviou o brilho de minhas exclamações.

Quando paro de escrever é porque meus olhos passaram a ignorar a sabedoria das sobrancelhas e fixar pouso na retina do que passou.

Quando paro de escrever é porque minhas lágrimas apagaram as linhas que desenhavam a forma da casa; e o choro dela queimou o sapé do telhado.

Quando paro de escrever é como um amor que fez de sua existência despedida.

Quando paro de escrever é porque não sei mais como dizer em minhas linhas virtuais como ela é parte de tudo que escrevo, de tudo que opino, de tudo que desejo. Metade de tudo que respiro. Mais da metade de tudo que vivo.

Quando paro de escrever é porque quero apreciar o instante magnânimo da ausência.

Quando paro de escrever sou analfabeto do mundo.

Quando paro de escrever morro um pouco mais longe dela.

Quando volto a escrever é porque ainda há muito para viver perto dela.


Jânio Dias

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Quando Ela Rouba

imagem: Adore, by Jerry Clovis

“Só tenho inveja da longevidade
E dos orgasmos múltiplos
E dos orgasmos múltiplos”


Caetano Veloso, em Homem


Ele, agitado: “Você rouba a parte do jornal que estou lendo, rouba o livro que ainda não terminei, rouba o meu travesseiro, o meu lado da cama, a minha caneta preferida, a minha caneca do U2, o meu dvd do Morrissey, o meu pedaço de frango no prato, a minha bebida no bar... “

Ela, serena: - “Eu sei, eu roubo tudo de você...”

Ele, inconformado: - “Ah, que bom... E o que mais você quer roubar de mim?”

Ela, firme: - “Mais nada. Já tenho tudo que quero. E quando quero mais, roubo mais”

Ele, quase assustado: - ”Mais? Mais o quê?”

Ela, quase distraída: - “Mais de mim”

Ele, interrogativo: - “Como assim?”

Ela, misteriosa: - “Eu me roubo de você”

Ele, insatisfeito: - “Como assim, você se rouba de mim”?

Ela, subjetiva: - “Eu roubo eu mesma de você”

Ele, tenso: - “Você ta me confundindo... Como é isso, de me roubar de mim?”

Ela, excitada: - “Quando você me faz gozar, eu estou roubando eu mesma de você”.

Jânio Dias

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Um Copo de Cólera

imagem: The Last Judgement, before 1562 by Domenico Robusti Tintoretto


“Trouxe flores mortas pra ti
Quero rasgar-te e ver o sangue manchar”

Legião Urbana, em A Tempestade


O que você ainda não entendeu é que nunca mais verá meu riso cúmplice deslizar pelas veias do seu pescoço branco.

Nunca mais encostará em meu peito seus cabelos molhados como chumaço de curativo que pedem alívio para a solidão.

Nunca mais terá de mim a saliva que umedece a dúvida e encobre suas mentiras fabulosas.

Nunca mais viverá comigo a tarde de quarta-feira deitada no parque sobre a grama coberta pela canga que levaste como se fosse um divã móvel. Nunca mais me contará dos anseios ardentes de menina em tempo de mulher, das fantasias sexuais que abalam uma vida convencional e que adoçam os dias amargos de quem quer viver o fogo intransigente do fim próximo.

Nunca mais me fará encher o tanque do carro para descer a serra só para andar descalça sobre a calçada da praia numa sexta-feira à noite qualquer e sentir a brisa provocada pela movimentação das ondas, molhar os pés e se oferecer para o mar. Nunca mais terás de mim o mesmo amor que encontraste na intensidade e exuberância da vaga.

Nunca mais seu telefone tocará após a meia noite para transformar seus desejos luxuriosos em mãos que te atacam no escuro da sua sala grande e confortável, abafando seus gemidos e protegendo seus pais e irmãos que dormem tranqüilos nos quartos de cima. Nunca mais seu telefone terá lábios que extraem de seu sexo o suco que a estremece deixando-a suspensa sobre o sofá.

Nunca mais terás a minha loucura para seus mimos que tanto me divertiram.

Nunca mais fará de mim brinquedo que manipula com seus dedos macios e ferinos como rosas carregadas de espinhos. Não decidirá o lugar e muito menos os minutos quebrados do horário para me apanhar. Não dirá em qual copo devo derramar minha vodka ou qual sabor de pizza não devo pedir. Dirigirei na contra mão atravessando o farol vermelho e não escutarei a ordem do policial corrupto e assassino para parar. Levarei um tiro na cabeça ouvindo feliz no volume máximo Franz Ferdinand.

Quero Arcade Fire no meu funeral. Eu sei que para sempre só você entenderá as minhas razões musicais. Mas antes, não terás mais minha entrega para compartilhar ao seu lado a nova música da nova banda que preenche de alegria e motivação meu ultrajado espírito. Não doarei mais minha alma para relembrar contigo o gosto fértil de quando éramos jovens ao lado daquelas velhas bandas e suas nunca ultrapassadas canções.

Nunca mais será premiada com músicas escolhidas como cenas de um filme de amor que têm esperança e reparação no final. Nosso último filme teve o suicídio do amor na última cena.

Nunca mais será celebrada por mim como musa inquieta e inalcançável. Eu te escalei o suficiente para te viver por cima e por dentro.

Você me faz sangrar o som da fúria.

Nunca mais lerá na saudação inicial de um e-mail meu os adjetivos que sempre encheram de ardor juvenil seu coração de estátua de cera. Não encontrará no fim do mesmo bilhete virtual a despedida que se contorcia como grito na forca na espera de vê-la outra vez. O carteiro entregando um envelope branco com uma folha rosa dentro amparando meia dúzia de pensamentos em você virou um registro apagado na memória da calçada da rua da sua casa.

Nunca mais meu abraço virá acompanhado do beijo que encarna a sua presença na lembrança dos anos que presenciaram minha transição de menino para o que sou hoje.

Nunca mais encontrará em meus olhos flamejantes o conforto que sua mãe já lhe deu, a segurança que seu pai nunca lhe assegurou.

Nunca mais terá de mim a força de um coração esguio que ampare com a ternura dos ouvidos as lamentações de sua boca inconseqüente. Nunca mais encontrará em meus pulsos limpos o abrigo para descansar as imperfeições de sua alma egoísta.

Não estou mais disposto a lhe promover em palavras que alimentem seu ego narcisista.

Nunca mais minha língua pulsara dentro de ti como início de vida clamando para nascer.

Nunca mais viverá em meus lábios a sede da procura pelo amor definitivo.

Hoje sou uma campainha que não toca, os cachorros que não latem, o portão automático enferrujado que não abre, o reboco embolorado da parede do corredor descascando pela ação estagnada do tempo. Sou palmas mudas em frente a uma casa fantasma.

O que você ainda não visualizou na retina desfigurada dos dias que criou para nós é que nunca mais serei seu.

O que você ainda não entendeu é que não encontrará mais em meus dias os vestígios de nosso amor.

Jânio Dias

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ventura

imagem: by Sylvia Ji, Garden of Sin


“And I awake from dreams
To a scary world of screams”

Jesus and Mary Chain, em Darklands



Quando te vi pela primeira vez, vislumbrei ao beijar-te com um singelo toque no rosto complementado de um imprevisível abraço, o cheiro latente de mulher hábil e experimentada, provocante e requintada, dessas que desafiam suspiros desesperançosos e galanteios obscenos por onde passa.

Naquela noite você usava salto alto, o que me fazia sentir um individuo nanico, um ser visto abaixo do seu nariz, que já procurava roubar seu ar mesmo sem conhecê-la, capaz apenas de contemplar tamanha formosura com olhares que se revezavam entre a margem carnuda de sua boca e a sede do mistério do seu olhar. Ainda hoje seus olhos são um culto secreto cuja porta de entrada é inacessível. Sua beleza era tão radiante que chegava a cegar qualquer resquício de juízo, tão imponderável que o novo ocultava qualquer presença de culpa ou pecado.

Nossas conversas fluíam fáceis como se sentissem atraídas, como que compartilhassem as mesmas sensações de alegrias e incertezas percorridas pela vida. Nossas conversas entreolhavam-se com interesses lascivos e secretos.

Não me preocupava em conhecer detalhes de onde vinhas nem se iríamos para algum lugar. Perturbava-me apenas a dúvida da liberdade de poder abraçá-la longa e publicamente, de acariciar-lhe as mãos e de estalar seus dedos quando estivesse distraída, de dirigir com vidros abertos e perceber o vento desalinhando impetuosamente seu cabelo.

Não me visitava a possibilidade das conseqüências de uma aventura errante.

Subitamente a paixão instalou-se de forma desenfreada e explosiva. Mal nos conhecíamos e já estava conhecendo suas sobrinhas e gatos. Eu pouco sabia do bairro onde mora e já te buscava na faculdade. Sua mãe nem sabia ao certo como eu me chamava e já preparava minha sobremesa preferida. Meus amigos mais íntimos a recebia em casa e a convidava para passeios. Minha mãe não trocou seu nome quando a conheceu. Você se tornou um hábito dominador.

Parecia que existíamos para o outro há décadas, que havíamos crescido e brincado na mesma escola e que nossas famílias sempre haviam sido amigas nessa vida. Sentia como que sempre estivesse estado presente e soubesse - não sabendo - nosso destino certo.

Agora parece que a ressaca de nosso amor encontrou os obstáculos que o impedem de seguir. Descobriu que qualquer vida tem seus passados de brilhos rústicos ou sombrios imaculados, e que qualquer nova história só será forte e terá valor se souber lidar de forma matura com esses aspectos e adversidades. E a maturidade parece ainda não ter se apresentado para nós.

A descoberta indesejada da vida passada de alguém será sempre uma mancha cinza e dolorosa na lembrança de quem você é antes de conhecer o outro.

Hoje em dia quando te olho, uma luz frouxa se aproxima e afasta com raiva a beleza dos tempos afortunados em que nos conhecemos. Uma sensação de insatisfação com o caminho percorrido me absorve pelos dentes e adormece qualquer indício de sentido do meu corpo. Os acontecimentos que existiram antes de nós tornaram-se nossa derrota.

E desde que éramos crianças, eu só queria ter sido seu domingo de sol.

Jânio Dias

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A Vida Secreta das Palavras

imagem: Naked Young Man Sitting by the Sea, 1836 by Hippolyte Flandrin

“Everyday is like sunday
Everyday is silent and grey”

Morrissey, em Everyday is Like Sunday


Meu silêncio é amigo zeloso. Respeita nossa história como se fizesse reverência a coisas sagradas.

Meu silêncio destila mel sobre o amargo de nossas imperfeições, atribui peso de valor onde há uma medida vazia, apaga o cinza que seu coração manchou, sopra as cinzas da fogueira da sua vaidade. Meu silêncio promove meios de vida à nossa amizade.

Meu silêncio protege você de mim. Cala teu sussurro perto do meu olhar, evita o afago do rosto quando devo cumprimentá-la, escurece a respiração antes de nosso abraço, afasta o vento que desliza pelos fios dos seus cabelos, desvia o toque secreto dos lábios no momento da partida.

Meu silêncio pensa em você mais do que eu. Não me deixa insultá-la, não me permite a réplica veloz, me afasta do revide à suas calúnias infantis e mimos burgueses, me segura quando deveria espancá-la com as palavras mais ácidas, quando deveria cuspir no céu de nosso passado o quanto fiz sem nunca receber em troca o olhar de quem entende o significado do sacrifício.

Meu silêncio releva suas mentiras. Simula acreditar em todas as bebidas que acompanham suas fantasias e acepções. Meu silêncio revela o quanto o amor é submisso e covarde.

Meu silêncio passa a pé em frente a sua casa para encontrar no vazio da calma o arrependimento necessário para seguir adiante.

Meu silêncio contradiz a expectativa de eu não ser mais aquele que esteve ao seu lado. Meu silêncio é carregado de sons que nunca lhe abandonaram.

Meu silêncio faz sigilo comigo mesmo para que você não saiba o quanto nossas lembranças passadas refletem a memória do presente.

Meu silêncio é colchão de retalhos que absorve o impacto da nossa falta de intemperança.

Meu silêncio ampara meus dedos sobre as teclas do computador, reduz minha raiva, desacelera minha fúria, perdoa sua insanidade.

Meu silêncio seca as lágrimas de um domingo a tarde qualquer.

Meu silêncio é grito aprisionado no peito.

Meu silêncio é mais impetuoso que sua cólera.

Meu silêncio é fingimento para viver tão perto de você.

Meu silêncio não é abandono, é refúgio.

Jânio Dias

domingo, 2 de dezembro de 2007

Azul Olímpico

imagem: Small Blue Head, 1998 by Graham Dean

“Olha lá quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar”

Los Hermanos, em O Vencedor


A segunda-feira, a segunda série, a segunda chance, a segunda dor, a segunda cruz, a segunda vez, o segundo voto, a segunda descoberta, a segunda via, a segunda rua, a segunda roda, a segunda bola, a segunda bicicleta, a segunda rabeira, o segundo carro, o segundo defeito, a segunda mania, a segunda alegria, a segunda celebração, a segunda amizade, a segunda intenção, o segundo telefonema, a segunda conversa, a segunda boca, o segundo olhar, o segundo beijo, o segundo doce, a segunda cama, a segunda gaveta, a segunda primeira vez, o segundo trago, a segunda dose, o segundo copo, o segundo ato, o segundo quadro, a segunda derrota, a segunda tensão, o segundo tesão, a segunda bebedeira, a segunda alternativa, a segunda vitória, o segundo milagre, a segunda fé, o segundo dente, a segunda mão, a segunda face, o segundo fio, o segundo pelo, o segundo tapa, o segundo tropeço, o segundo suspiro, o segundo segundo, o segundo lado, a segunda sede, a segunda parte, a segunda pátria, a segunda escola, o segundo escoteiro, o segundo sinal, o segundo parto, a segunda união, a segunda à direita, a segunda à esquerda, de segunda mão, a segunda pergunta, a segunda resposta, o segundo hábito, o segundo tapete, a segunda dança, a segunda mesa, a segunda ceia, a segunda santa, o segundo acaso, a segunda namorada, a segunda alma, a segunda marca, o segundo caso, o segundo canto, o segundo agudo, a segunda dispersão, o segundo amigo, o segundo irmão, a segunda Maria, a segunda flor, o segundo sol, a segunda lua, a segunda água, o segundo raso, a segunda noite, a segunda diversão, o segundo sentido, o segundo caminho, o segundo desvio, a segunda tristeza, a segunda margem, o segundo dia, a segunda banda, a segunda bala, o segundo calibre, o segundo tempo, a segunda chuva, o segundo feito, a segunda barreira, o segundo emprego, a segunda caixa, o segundo sapo, a segunda queda, o segundo grito, o segundo lugar, a segunda esperança, a segunda tentativa, a segunda mesa, a segunda casa, a segunda bebida, a segunda sexta, a segunda lágrima, o segundo verso, a segunda linha, a segunda escolha, a segunda história, a segunda canção, a segunda memória, o segundo antes, o segundo depois, o segundo enquanto, o segundo branco, o segundo vermelho, o segundo azul, o segundo preto, a segunda tempestade, o segundo início, o segundo meio, a segunda borboleta, o segundo frame, a segunda notícia, o segundo palpite, a segunda certeza, a segunda vela, a segunda reza, a segunda terra, a segunda emoção, o segundo retorno, a segunda mãe, a segunda irmã, o segundo filho, a segunda geração, o segundo filme, o segundo livro, o segundo autor, o segundo personagem, o segundo flash, o segundo choro, o segundo berro, a segunda cura, o segundo excesso, o segundo gosto, o segundo amargo, o segundo conceito, o segundo aceito, a segunda morte, o segundo enterro, o segundo campo, o segundo acesso, o segundo rolando, o segundo jogo, a segunda decepção, a segunda realidade, o segundo velório, a segunda decisão, o segundo saber, o segundo recuo, o segundo profundo, a segunda ilusão, a segunda taça, a segunda pílula, a segunda seita, a segunda pelada, o segundo jogador, a segunda posição, o segundo time, o segundo coração, a segunda vida, o segundo fim, o segundo nada.

O segundo que passou eterniza o próximo.

Parabéns Corinthians pela Segunda Divisão.


Jânio Dias

domingo, 25 de novembro de 2007

O Livro dos Dias (ou Temporada das Flores)

imagem: Malevich Inspired by Jung Sook Nam


“Será que você vai saber
O quanto penso em você com o meu coração?”

Legião Urbana, em O Descobrimento do Brasil


Eu acho que desci os seis lances de escadas que separam o teatro do
Centro Cultural do Banco do Brasil no centro velho de São Paulo do seu térreo apenas para que o vento batesse em meu rosto e secasse as lágrimas ainda úmidas. Acho que evitei a companhia de Marcelo Rubens Paiva no elevador para que ele não percebesse meus olhos vermelhos e incontrolavelmente marejados.

Foi meu terceiro contato com o, digamos, dilacerante espetáculo
Renato Russo – A Peça, e ainda não me acostumei aos efeitos colaterais causados por ela.

Na primeira vez, lá em setembro, viajei até a cidade de Santos para conferir o espetáculo no gigante teatro Coliseu, com características barrocas. Um abrigo perfeito para o ego do artista que ali seria reconstituído. Era especial para mim ir até lá, havia presenciado duas apresentações da Legião Urbana naquela cidade, e a última vez havia coincidido de forma desastrosa com a história do último show da vida da banda. Ao final da peça, só sabia bater palmas ininterruptas para o talentoso ator Bruce Gomlevsky que interpreta e encarna de forma assustadora e convincente a alma e o espírito do poeta e cantor Renato Russo. Acho que fui a última pessoa a dar as costas para o palco do Coliseu naquela noite. Estava incrédulo com o que havia visto. Era incrédulo o que sentia.

O segundo e terceiro contato com a peça foi ontem e sexta, aqui na capital. Teatro pequeno, capacidade para 125 testemunhas apenas, quase uma apresentação fechada. Um convite para assistir com o rosto entre a janela da casa e o quintal da saudade da complexa, rica, dolorosa, lírica e atormentada alma do artista quando jovem.

Bruce Gomlevsky não canta bem, mas impressiona e marca a pele e a memória do espectador com gestos, jeitos, e olhares de um Renato Russo de carne e sentimentos tão vivos quanto o ator que aperta a mão de quem está na primeira fileira. Aproveita-se só um pouco do humor ferino do Renato para torná-lo o melhor amigo outra vez. Planta em mim a curiosidade de saber qual o meu ascendente ou pense no meu mapa astral. Faz as pessoas rirem como se ele nunca tivesse sido visto como um ser dramático, mas sim como comediante romântico. Faz eu senti-lo com o coração; o coração de quem viveu intensamente as histórias, as entrevistas, as dúvidas, as expectativas do novo disco e do próximo show. Faz eu ter vontade de dançar com a minha própria sombra. Mostra como híbridos são meus sentimentos e constante é a incoerência humana. Escancara nos rostos das pessoas a dor de quem não escolheu o sofrimento como opção. Inevitáveis são a perda e a partida.

Inevitáveis também parecem ser os efeitos colaterais do espetáculo. Algo tão dramaticamente belo, tão rico em detalhes que sempre figuraram a imaginação coletiva dos fãs, tão sincero e ético como toda homenagem póstuma deveria ser, ainda assim, machuca o coração de quem esteve tão perto. Agita e ferve a cabeça de quem só ouviu falar. Embaralha as lentes de quem só descobriu agora. É uma sensação que vem para reviver aquilo que se perdeu e lembrar o que poderia ter sido. Sensação que não sabe para onde vai depois que chega. É uma saudade cheia de preces.

Chega a ser difícil encarar o Renato Russo de Bruce Gomlevsky nos olhos. Ele é atormentado, carrega o mundo nas costas em forma de dor; é solitário e busca o sentido da vida em um novo amor. O amor é tempo que acalma a vida e esta é incompreensível. A vida dele é amor e assim como o tempo, ambos são fugazes. O olhar de Bruce Gomlevsky é persuasivo. O Olhar de Renato Russo também.

Hoje está difícil olhar para o quadro com a fotografia de um show na parede do quarto.

É mais fácil morrer para se sentir fantasma e ter coragem para perguntar sobre o título daquela canção; ou mesmo, assim, como velhos amigos, “como vai a vida, Renato?”.


Jânio Dias

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sol no Coração

imagem: Gecko, 1998 by Vivika Alexander


“Quando o sol me iluminar
Estrela de calor e luz
Vem me acordar
Eterna como a vida é
Sempre a acabar”

Astromato, em
Sonhos de Alta Definição


Tem dias em que procuro o sim. Desencontro-me dos motivos de desistir e da condição de negar. Abraço um perfume cor de jasmim, beijo uma corrente de ar no corredor do quintal, desloco o queixo branco sobre lírios roxos no muro da vizinha. Convido as pombas na garagem para passear, cumprimento o cão com uma batida no peito. Faço continência para o gato preguiçoso deitado sobre a boca do poço.

Conto as folhas da árvore no chão e penso na sutileza e na fúria dos ventos que as derrubaram. Pego a mangueira d’água e esguicho meu nome sobre as plantas. Não meço a quantidade de água que desperdiço no quintal, estou matando a sede da terra.

Não me preocupo com a porta aberta da geladeira, não controlo a luz da lâmpada acesa no banheiro, não verifico se desliguei o gás do fogão ou tranquei a porta da cozinha, deixo a cortina desalinhada e a janela entreaberta; não cuido da casa, minha casa é que cuida de mim.

Enrolo uma canção num guardanapo e deixo sobre o capô de um carro vermelho qualquer. Esqueço um livro de bolso no banco do metrô, ofereço o guarda-chuva para a velhinha que vai atravessar a rua. Grito com o farol amarelo: “você não sabe, mas é laranja”.

Afogo o pãozinho com margarina na caneca de café da padaria repleta de pessoas estranhas vestidas com ternos escuros e mulheres elegantes com seus saltos agulha de furar gelo. O pãozinho com margarina afoga minha diferença de classe.

Peço licença ao morador de rua para tirar uma foto de seu abrigo. Seus tapetes são papelões de fogo. Suas cobertas é o fogo em forma de papelão. O vento que passa por ali cheira a querosene. O clique da foto provoca combustão temporária no coração. Seu sorriso de janelas abertas é o consentimento da licença para pisar na calçada de sua morada. Suas marcas no rosto é o fluxo luminoso da vida que passa ausente de concessões.

Quando a menina branca de sardas atravessa o portão de casa vejo uma criança sapeca e radiante correndo de braços abertos na minha direção. Ela se joga contra meu corpo, me beija e me abraça com ternura imaculada. Quando a mesma menina atravessa a porta de casa, as paredes viram-se de costas, o chão afasta a mesinha de centro, o sofá se desloca para o outro canto, o tapete fica maior e colorido, o batente da porta do quarto estica-se, a cama não espera nossa chegada. Essa menina é ninfa que desaloja a casa. Quando ela está em casa, a cidade se ausenta para nós.

Tem dias que digo sim para a vida.

Tem dias que não procuro o caminho curto, o tropeço certo. Desvencilho-me do andar trôpego, desato as cordas da rua, solto o ar dos pulmões no precipício mais perto. Ralo os calos dos pés, enxugo as feridas das mãos, seco as lágrimas da camisa verde. Imponho no peito a insígnia da fé. Tem dias que digo sim para o que vier a frente.

Tem dias que aproximo o aconchego de velhos amigos.

Tem dias que não repercuto a falta. A justificativa de quem não veio, a desculpa de quem perdeu o endereço. O descuido com a história, o descaso com o amor. Não culpo quem me esqueceu; perdôo quem me negou. Tem dias que sou indulto.

Meus dias ardem. Tem tarde. Querem arte.

Tem dias que carrego sol no coração.


Jânio Dias

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Chuva no Coração

imagem: Martin Kenny


“Eu quis querer o que o vento não leva
Prá que o vento só levasse o que eu não quero
Eu quis amar o que o tempo não muda
Prá que quem eu amo não mudasse nunca”

Paralamas do Sucesso, em Um Pequeno Imprevisto


Eu tinha certeza que hoje choveria. O sol não nasceria em respeito, faria um dia ou mais de silêncio. Não tocaria os sinos das janelas das casas, não entraria pelas fendas estreitas dos telhados. Cederia sua imponência à bebedeira do céu.

Hoje choveria, eu tinha certeza.

Ao olhar para o firmamento do céu lembraria do amigo que não saia da minha casa quando menino pequeno. Das nossas idas à cachoeira em dias de calor intenso, do olhar parado observando em silêncio ou evitando o futuro junto à queda d’água. Das batalhas no campinho de terra que virava lago de lama vermelha quando chovia. Do concreto escaldante da quadra da escola e do alívio das chuvas de janeiro. O amigo de infância faz falta em dias de chuva.

Eu achei que hoje ao abrir os ouvidos enxergaria gotas ácidas de lembranças celestes no quintal. Tomariam formas das manhãs ausentes de preocupações como nos dias que não havia aula (Se o meu amigo ainda não estivesse aparecido em casa, eu iria até a casa dele com a bola embaixo do braço). Formariam poças inquietas de carrinhos disputando corrida sob chuva com pneus de plástico mesmo (Os carrinhos de bateria ou autoramas eram sonhos inalcançáveis na tv). O chão estaria inflamado convidando para um passeio de bolinhas de gude no céu (As pipas estariam em baixo da cama esperando o sol sorrir).

Hoje ao levantar, imaginei que ao olhar o céu desceriam lembranças carinhosas e corrosivas. Que o café que estava pronto na garrafa havia sido feito pela minha mãe e que ao subir a escada de cinco degraus até a sala, encontraria meu pai assistindo ao seu programa sertanejo preferido. Eu não brigaria com ele para ver o desenho do pica-pau porque ele só fazia aquilo quando podia estar descansando naquele sofá. O tio, a tia e os primos estariam vindo para almoçar em casa após quatro conduções e três horas de viagem. A saudade do que não existe mais é um fio fino, frio e corrosivo.

Ontem ao deitar, pensei que hoje assistiria pelas frestas da cortina a um show de pingos incessantes de poesia caindo no quintal. Pingos que tornam a vida ainda mais molhada, como a carta da menina amada que diz que esteve nos últimos dias pensando muito em mim, “nada de mais” ela frisa, apenas pensando sem saber o porquê; como a ligação do amigo enfatizando que precisamos nos ver antes do ano acabar, o e-mail da amiga que confirma a ida ao teatro sem confirmarmos a data, ou a ligação do outro amigo avisando que não irá em casa porque irá jogar futebol em outra cidade. Os pingos que caem do céu são o apego às pessoas que amamos em forma de reticências molhadas.

Agora, enquanto exponho o coração às linhas desniveladas do tempo, estico o olhar pela janela e quase que posso sentir o cheiro do vento embriagado que passa avisando que vai chover, sim. Quase que posso sentir meu cabelo se mexer com a corrente fresca de ar que invade o quarto. Talvez seja aviso falso, pois há nuvens brancas e espessas como algodão doce lá em cima; e o sol colori todo o resto de amarelo constante. Mas nada muda a sensação aqui dentro, de inverno que se instalou em forma de distância e amor.

Em dias como o de hoje, com chuva ou sol, meu coração é úmido como meu choro.

Jânio Dias

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Onde Está a Poesia

imagem: Where Angels Dance, 2005 by Lee Campbell


“E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar prá casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos”

Legião Urbana, em Música de Trabalho


Eu levanto pela manhã sem acordar, sem abrir os olhos, com vontade de encurvar a coluna outra vez e bater o rosto contra o travesseiro. Eu levanto com o cobertor sobre a face para imaginar que ainda é madrugada, para que eu não me encontre com o relógio, não ache os chinelos e sinta a cama me pedindo para voltar. Eu levanto sem pijama para que ela tenha dó de mim e me peça para manter a porta do quarto trancada. Eu durmo de costas para a janela para estreitar a amizade com o lado de lá da cama. Eu levanto pela manhã de olhos fechados pedindo para que o sol espere um pouco mais para me dar bom dia.

Eu bebo café antes de escovar os dentes para mastigar a noite anterior com manteiga. Eu como a noite de ontem para saber que não a perdi dormindo. Eu a levo comigo quando saio de casa para o trabalho na incerteza de que irei encontrá-la na hora de voltar.

Eu caminho até o metrô me despedindo do canteiro de flores e da obra do funileiro Alemão no carro vermelho. Digo olá emitindo som de adeus com o balançar do cabelo ainda molhado. Mudo para o outro lado da rua passando entre os carros enfileirados e pensando como seria o nome verdadeiro do Alemão. Nunca nos falamos, sempre nos despedimos.

Eu entro no metrô disputando lugar na janelinha. Minha vitória é a segurança do cotovelo apoiando o rosto junto ao vidro que ignora a vida que passa do outro lado sem fazer reflexo. Meu conforto é fechar os olhos para dormir na ignorância e acordar aliviado perto do trabalho. Em dias de sorte eu sigo acordado reparando na beleza controversa das pessoas.

Eu chego ao trabalho com a missão de sobreviver. Os papéis em cima da mesa parecem que fingem estar descansando para me atacar depois. Os e-mails em vermelho significam que a leitura é obrigatória e indispensável. A melodia de dois acordes do telefone que toca é sinal de questionamento sem opção de consulta. A voz feminina que ecoa da sala de vidro não é a da minha menina branca com sardas. O mar não é para peixe e sim para tubarões. O encontro na máquina de café é comercial no jogo da TV enquanto a bola não é reposta em campo. Os amigos da hora do almoço nunca jantaram em casa. Nossas confidências são sobre o desejo involuntário de comer a recepcionista. Na hora de ir embora o corpo vai e a mente parece que ainda está lá, desconfiando do ataque secreto dos papéis. O local de trabalho é o melhor lugar para não existir.

Eu volto para casa com as chaves presas ao peito. Elas preparam meus pulmões para outras vontades. Facilitam minhas mãos para outras palmas. Iniciam meus passos em outras definições.

Eu chego em casa rasgando a folha da porta para nascer uma nova. A folha da porta desenha e separa a brevidade do dia. Pela manhã é obrigação com dever, no retorno é possibilidade de imaginação.

Eu entro em casa sapateando o teto dos sinos. Oponho-me ao silêncio linear e temperamental da geladeira, quero a agressão da água caindo sobre a louça na pia, a transfiguração do calor e da luz da chama do fogão.

Eu mergulho contra o chuveiro para diminuir a força e a tensão, para moderar a culpa e perverter os pecados, suavizar o retorno e preparar o corpo para o dia seguinte.

Eu me espalho pela sala como música que invade a cozinha da casa ao lado. Eu me largo no sofá como livro esquecido com páginas abertas. Eu me esqueço na sala como disco dentro do aparelho. Eu me encontro nos cômodos de casa.

Eu me acalmo em casa como a almofada que dorme serena sobre o tapete.

Estar em casa é não ter o corpo em casa. Estar em casa é ter o coração mais perto da poesia.

Jânio Dias

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

De Onde Vem o Amor

(para Jou e Léo)
imagem: Juliana Araújo



“Your love is the place where I come from”

Teenage Fanclub, em Your Love Is The Place Where I Come From


Eles não precisam de muito para viver, não querem quase nada além do que já possuem. Nada aquém de pensamento positivo, do perfume sereno das flores, do instante mágico e intacto de uma fotografia, do encanto fértil da música, da verdade saliente das cores, e de simplicidade com amizade feliz.

Eles não precisam de muito, já têm um barquinho. Um cesto grande com coberta que esconde o sol e equilibra a chuva. Faz cama de sombra para o cão que nada como pato. Flutua sob as águas verdes do rio que descansa a busca do cansaço. Um motorzinho que empurra a vida para o encontro ausente do sossego. Um barquinho que têm dois bancos que transportam o corpo para a volta. O amor deles tem um barquinho fora do mar.

Eles não precisam de muito, já são donos de uma ruazinha. Uma rua pequena e estreita de mão dupla que cumprimenta a vida de estranhos transformando-os em velhos conhecidos. Um corredor humanitário que interage com as forças do meio social. Uma viela que salga o sorriso do andarilho que entrega cartas da civilização. Um portão sem calçada que se abre e adoça a imagem do forasteiro chegando. Uma passagem que é uma fenda que abraça o íntimo e a visita. Uma ruazinha que tem o chão revestido de cimento e o céu vestido de brigadeiro. O amor deles é uma ruazinha com endereço só de ida.

Eles não precisam de muito, já possuem diversas famílias. De tipos variados e de moradas diferentes. Pessoas aparentadas, herdadas ou escolhidas. De peles ou sotaques que se completam, como o sangue do simbolismo ou a aliança das veias. Como o compromisso das palavras e as línguas do coração. Como a raiz dos vocábulos e as folhas da adoção. Como o filho e a filha que ainda virão, como o pai e a mãe que sempre existirá. O amor deles é uma família formada de letras e sons que se apegam.

Eles não precisam de muito, já têm seus anéis simbólicos de casamento. Desenhos pelo corpo que os diferem, aproximam e se encaixam. Colorem e movimentam a vida da relação. Brincos pelas orelhas, nariz e sobrancelhas que se enroscam e mostram independência. Chaves para a caixa do desejo. Trancas da necessária e rigorosa lealdade. O princípio e o desfecho da composição romântica. A intenção marcada no corpo. O amor deles são desenhos e brincos que amparam o amor.

Eles não precisam de muito, possuem coisas pequenas e charmosas. Enfeites que realçam e promovem a alegria de estar. Pedras de cerejas coloridas no banheiro, um carrinho dos flinstones que é a casa do peixe barney, a gata maria luiza que faz carinho sem precisar pedir, essências naturais aromáticas que queimam e perfumam o ambiente, um pote de jujubas cor de vinho que desperta a vontade infantil de roubar balas, um colchão com muitas almofadas no piso da sala que escoram o corpo intruso, porta-retratos que são janelas para as lembranças de amanhã. O amor deles é uma casa pequena, quadriculada de listras e estampada de sol.

Eles não precisam de muito, vivem em uma ilha. Mas não uma ilha qualquer, isolada e cercada de água pelos lados, com palmeiras e pássaros cantando. O canto dos pássaros lá é o passeio tranqüilo e o retorno da saudação de bom dia. É uma ilha com moradas, com uma bicicleta com cesta com pães apoiada na entrada do bar, com ruas pequenas e sem nome para chamar de minha. O número 43 pode começar ao desembarcar do barquinho, e o 44 pode estar apenas duas retas e três curvas a frente. A calçada é o eco de seja bem vindo. Lá as ruas pertencem a todos, e mesmo não parecendo que todos vieram do mesmo lugar, os vasos de flores apoiados nas janelas das casas dão a impressão de terem o cuidado das mesmas cálidas e sofridas mãos. O amor deles é uma ilha de aconchego.

O amor vem de onde se produz amor.

Jânio Dias

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Beijos Insanos

imagem: C.St.


“O doce da loucura é teu, é meu
Pra usar a sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, já vi, mon cherri
Mas meus olhos doidos, doidos, são doidos por ti”

Nenhum de Nós, em Telhados de Paris



Ela disse: “Adormeça em minha boca, suspenda a minha voz, e perca-se em nossos beijos...”

Quando a beijo, não a beijo; simplesmente, morro em sua boca.

Quando não a beijo, escrevo beijos imaginários. Desenho beijos esparsos no ar. Beijo a lâmina do vento, um filete de sol, o manto azul da noite.

Beijo a contemplação da água que cai do céu. “Ainda chove por aqui... com esse tempo e com você, eu não sairia da cama. Beijo de manhã de desejos”.

Beijo a intenção material de ser causa. “Antes, na sua memória, depois no seu coração; e quem sabe, fazer parte da sua história. Beijos de sonhos que se movem”.

Beijo o perigo da salvação. “Beijar você é como se perder e não querer voltar. Beijo perdido de desejo”.

Beijo horizontes e fronteiras indefiníveis. “Daqui a pouco eu também vou deitar, e quando fecharmos os olhos e o sono vier, estaremos dormindo juntos. Beijos que atravessam cidades pra chegar a você”.

Beijo a excitação de existir. “Ainda falta muito para o dia chegar? Quero que o dia chegue logo para que eu possa beijar a vida em seus braços. Beijos inquietos”.

Beijo a nostalgia de sentir a vida amanhecer da janela. “Ainda não tive coragem de levantar da cama e você não esta aqui. Seu cheiro e nossa vontade estão por todo lugar. Beijo de olhos fechados!”.

Beijo a ardência do pulsar. “Esse beijo onde sua boca suga minha língua me deixa todo arrepiado, o coração em disparada e as pernas bambas. Beijo de língua exposta”.

Beijo a linha tênue que separa o homem do menino. “Saiba que quero estar cada vez mais perto de você. Beijos de longe, que a tornam a parte mais bela do dia!”.

Beijo a infância que ficou atrás do muro da escola. “A contemplação do seu corpo é ainda mais completa se tenho que admirar sua nova lingerie. Seu corpo embalado é ainda mais provocador e insano. Beijos insanos!”.

Beijo o movimento arrebatado e vagaroso da densidade. “Nossos corpos nus, nossos corpos colados, nossas pernas entrelaçadas, meu braço embaixo da sua cabeça, meu outro braço sobre seu peito... Não quero sonhar, quero isso tudo de verdade. Beijos avassaladores!”.

Beijo roubando vida. “Tô saindo agora... levo comigo o seu carinho, a sua dedicação, o seu companheirismo... E ainda mais: o seu cheiro, o seu gosto, a nossa vontade.... Levo você comigo para não devolver mais. Beijo sem devolução!”.

Beijo o sono que se aproxima. “Agora na cama, quarto todo escuro... Fecho os olhos e, enfim, passo a desfrutar de todo o seu corpo, outra vez”.

Beijo o doce do silêncio. “Hoje, só beijos serenos para suavizar as marcas de ontem”.

Quando a beijo, não a beijo; simplesmente, renasço em sua boca.


Jânio Dias

sábado, 6 de outubro de 2007

Cantiga para não Esquecer

imagem: Sylvia Ji, Autumn


“Oh, maybe I think maybe I don't
Maybe I will maybe I won't
Find my way this time
I hear you're calling me soon
One of these days
Some of these days, and somebody pays
It happens all the time
I'll believing, believing you wanted me to”

Magic Numbers, em
Love is just a Game


Ah se ela soubesse como ainda incita meu ser invisível com suas provocações libidinosas...
Ah se ela soubesse como encarava cada instante nosso como vida urgente e inadiável...
Ah se ela soubesse como ainda lembro do frio que subia pelas costas quando a via...

Ah se ela soubesse como não sinto mais a dormência das pernas de quando se aproximava...
Ah se ela soubesse como meu coração saltava para a garganta quando me beijava...
Ah se ela soubesse como sua boca generosa ainda permeia as curvas da minha imaginação...
Ah se ela soubesse como encararia uma surra pelo toque daqueles seios outra vez...
Ah se ela soubesse como seu sorriso sinuoso é como um feitiço aprisionador sobre meus olhos...
Ah se ela soubesse como seu olhar dissimulado ainda confunde e entorta meus passos...
Ah se ela soubesse como meus caminhos nunca mais foram estradas para o sol...
Ah se ela soubesse como o fogo que existe em mim se tornou um vulcão impetuoso...
Ah se ela soubesse como velozes e frágeis são as flores que desenhamos no corpo...
Ah se ela soubesse como eterno se tornou a saudade da cantiga dos versos que juntos cantamos...

Ah se ela soubesse... que eu sei que ela sabe.

Jânio Dias

domingo, 30 de setembro de 2007

Universo Paralelo

(para o amigo Marcelo)

imagem: Miró, El Carnaval de Arlequim


“Hoje é terça-feira
e todos meus amigos voam
com olhos de anis
com asas de fogo
e meus olhos cheios
de mágoa então”

Vanguart, em Semáforo


Já passou. Guardo um ramo de lembranças na parte esquerda do peito. Folhas suspensas no asfalto frio da memória. Grãos de areia que formam o deserto molhado da retina. O que vivi de belo preservo com o cuidado da mão leve sobre o cristal. O que vivi de belo preserva o melhor de mim no tempo.

Levo minha vida celebrando o passado e fazendo atualizações do presente. Não preciso citar na construção ligeira de um perfil o quanto já gostei de RPM ou li as letras de Guilherme Isnard como poesias. Quantas vezes me deparei sozinho em um show do Capital Inicial cantando desesperada e insanamente canções como Veraneio Vascaína ou Fátima. Não preciso contar que música em inglês para mim eram apenas Smiths ou U2 e variantes, ou quase nunca música em inglês, porque eu precisava saber exatamente o que estava sendo dito; hoje quero ter noção apenas do que sinto. Aliás, “só ouço o que me toca”. Não preciso citar minhas canções favoritas da Legião Urbana como as mais importantes da minha vida. Só preciso saber que as vivi intensamente, como quem visitou por raras vezes o parque num domingo de sol ao lado dos pais. Hoje vou ao parque ao lado de outras pessoas não menos importantes.

A minha primeira namorada foi tão importante quanto a última. Tão necessária para o que sou hoje como a professora Heliete da 4ª série. Tão fundamental para os meus dentes quanto o bochecho com flúor antes das aulas. Tão essencial para os bailinhos do ginásio quanto a prima que passou férias em casa e me beijou na boca aos 12. Eu recordo isso como um brilho eterno de uma mente com lembranças.

No universo da música construo relações de amor com o que considero que há de melhor. Minha opinião é individual e não quer fomentar verdade a quem quer que seja; muito menos fazer pose para chamar atenção. Pose é para quem não entende o movimento do próprio corpo. Passei há muito da fase de procurar a menina ideal pelos discos que ela tem em casa, hoje acredito que nossos discos precisam combinar em 25% ao menos. Não sou eu que estou menos seletivo, meu gosto restrito é que é abrangente. Uma frase emblemática como “só o rock é sobre amor” pode parecer discriminatória, mas no fundo representa apenas um elemento pessoal que alimenta e faz suscitar a paixão pela música. Considero meus gostos atuais como evoluções daquilo que conheci. Aquilo que vivi me preparou para aceitar o novo.

Não sou eu que vivo em um universo paralelo, é você querido e velho amigo, que não se dispõem a acompanhar o que nasceu e nasce após a nossa rica e perene geração coca-cola. E não me venha com a cega e ignorante resposta de que o que é produzido hoje não presta ou é tudo lixo. O entulho é formado pelo que nossos olhos não acessam e pelo que nossos ouvidos não permitem a visita. Ouvir rock da geração 00 é doar sabedoria em troca de energia e jovialidade. É como sentir o frescor do corpo de uma menina.

Algumas bandas e canções serão para sempre únicas, como únicos e eternos são alguns amores. E dentre eles, velho e querido amigo, o nosso.


Jânio Dias

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Brilho Eterno

imagem: retrato de Mademoiselle Alice Guerin, de Paul Cesar Helleu.


“- Veja você, onde é que o barco foi desaguar
- A gente só queria o amor...
- Deus parece às vezes se esquecer...”

Los Hermanos, em
Conversa de Botas Batidas


“Amor eu sinto a sua falta
E a falta é a morte da esperança”

Nando Reis, em
Por Onde Andei


Ela confessa: "sinto sua falta, mas estava chateada".

E ela mal sabe como eu me sinto. Como me faz sentir. Como meus dias escureceram sem que o sol se pôr-se. Como a lua invadiu minha retina como se tomasse minha visão para si num eclipse. Como a garoa que cai sobre a estrada que passa próxima à sua casa parece uma tempestade para atravessá-la. Ela mal sabe o quanto me faz falta.

Como faz falta seu sofá salmão desfiado pelas gatas, suas gatas brincando de adagas voadoras pelo apartamento, seus nomes perfeitos de filhas que não teremos, as brincadeiras de provocar até sangrar os arranhões e seus carinhos para suavizar o ardor provocado pelo fim da folia.

Como faz falta ficar em pé em frente à sua janela olhando para o vazio da linha de trem que divide o bairro. A luz cor amarelo-avermelhada que invade a sala quando o dia se vai. As luzes das casas e dos carros enfeitando ao longe a paisagem como lâmpadas em árvores de natal.

Como faz falta o entusiasmo e serenidade que produzia em mim ao tentar lhe mostrar uma banda nova para logo em seguida ouvirmos a mesma velha canção. Como faz falta saber que depois de algum tempo ela descobriria aquela banda e não ouviria outra coisa por semanas, que faria suas viagens de ônibus ouvindo a nossa invisível trilha.

Como faz falta não termos realizado o sonho de morar perto para ir ao parque ou ao mercado juntos, fazer ioga ou tarô, jogar sinuca ou palitinho, assistir dvd’s ou copiá-los, ir à exposição dos dinossauros ou à feira de ciências da 4ª série B, ensiná-la a beber cerveja ou descobrir por quem pintou os cabelos.

Como faz falta nossas conversas que começavam no silêncio dos toques dos dedos sobre as mãos, que se estendiam sem rumo ou sentido pelo mistério de não saber como voltar; como faz falta nossas conversas que se afugentavam no encontro do olhar que nos avisava do perigo de não tentar.

Como faz falta seus cabelos vermelhos esvoaçados como o da foto do deserto de sal, sua pele branca como de renda que ainda formam desenhos no meu olhar de refém, o gosto do algodão cítrico de sua boca que ainda permeia minha memória, o sorriso que encanta no olhar da menina que conheci virgem e já vislumbrava mulher.

Como faz falta ficarmos sozinhos relembrando os dias que não ficamos juntos, como éramos íntimos sem sermos amantes, como éramos amigos sentindo desejos mútuos, como dividíamos o colchão como quem reparte um prato de comida para dois.

Como faz falta lembrar do gosto de nunca tê-la tocado.

Como faz falta esquecer como é amá-la sem estar presente.

Como é difícil sentir a ausência de viver tão perto.


Jânio Dias

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Um Blog para...

Imagem: por mim mesmo, dezembro de 1997.
kkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkk
“But each night, I bury my love around you...
Oh each night, I bury my love around you...
You're linked to my innocence”

Interpol, em Say Hello To The Angels


Um blog para... chegar em casa mais cedo, para sair do trabalho mais cedo, para ler mais em casa, para escrever mais em qualquer lugar; para ficar com o olhar parado e perdido no vazio do trabalho e do metrô enquanto volto para casa; para celebrar o amigo, pensar na amiga, para fazer novos amigos; para me preocupar com epígrafes que adornam e complementam o texto escrito, ou que apenas eu saberei o porquê; para entrar em contato com o mundo fantástico das imagens, e visitar sem querer obras e museus sem ter que passar por filas de aeroportos; para abrir um dicionário de sinônimos e visitar o aurélio, para procurar em alguma gaveta aquela relação impressa com o uso dos “porquês”; para contar as memórias da infância como a criança que está brincando de imaginação; para continuar alimentando os sonhos da adolescência como quem alimenta a ilusão que seu time será campeão na próxima estação; para não confiar no poeta que disse que escrever dói, a dor é descobrir que não será lido; para o meu amigo poeta sentir vontade e necessidade de escrever, para que eu possa reproduzi-lo aqui também; para dissimular a tímidez, ludibriar a solidão e disfarçar a loucura; suprir o esquecimento, desvendar a ausência, estimular minha incoerência; para expandir o que há de bom em mim, para expelir o que há de mau em mim; para uma amiga com tempo livre pensar na possibilidade de ter o seu blog, para saber que ela irá vir aqui me ler; para contar a história de alguém em primeira pessoa, para fazer dela a minha história, para viver a sua vida; para falar em terceira pessoa sem descartar a possibilidade de ser eu mesmo, para confundir o mais íntimo, para por em dúvida o mais distante; para eu ser vários de mim e me transformar em outros; para a música ser poesia, e para a letra encontrar uma canção; para dizer publicamente à alguém que eu a amo, para que ela saiba que a amei; para eu não contar para ninguém no trabalho que tenho um blog, para não diluir a possibilidade da surpresa ao ser questionado – e do espanto de quem pergunta - : “você tem um blog?!”; para sentir a pressão e angústia de não saber se conseguirei escrever o próximo post, para sentir o alívio e orgulho de ter escrito um novo post; para seduzir a mulher desejada, para conquistar uma nova mulher, para homenagear a mulher amada, para reverenciar a possibilidade de amar a mesma mulher; para ter certeza de que tudo é improvável, e relativa é a minha falta de tempo e criatividade; para manter a certeza máxima da afirmação feita pelo Bidê ou Balde: “Se sexo é o que importa, só o rock é sobre o amor”.

Um blog para diminuir o tamanho do sentido e aumentar a sensação de estar. De festejar o amigo, a amiga, as meninas de quinze anos, as mulheres de 29, a banda, a lenda, a sua canção, a nossa música, as descobertas, os cobertores, as caminhadas, os caminhos, os encontros, os ombros, os sabores, os desencontros, a tensão, o tesão, as casas, as asas, os casais, a família, os filhos, as mães, os pais, os pães, as viagens, as virgens, as conspirações, as contradições, as sementes, os ventres, os frutos, os puros, os putos, as intenções, as pretensões, as concordâncias, as dissonâncias, as paixões, as ilusões, as alegrias, os choros, as fotos, os pólens, os êxitos, os êxodos, os beijos, os poemas, os abraços, os textos, a juventude, os shows, as estórias, a amizade...

Um blog para estreitar as metáforas entre as pessoas e alongar o significado da palavra.

Da palavra amor.

Jânio Dias