quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Across the Universe

imagem: Walnut Tree, 1998 by Robert Hobhouse


“All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need”

Beatles, em
All you need is love


Ela se agita em dias de calor intenso. Perde o sono, pede água, respira as frestas da janela. Chuta o lençol, arranca toda a roupa, arregala os olhos para o teto do quarto, sobe no telhado só de calcinha azul, bate papo com a lua de um céu claro e seco. Ela quer o frescor de um beijo no rosto, a suavidade de uma canção ao luar, ser o mistério de uma meia lua sobre o próprio corpo.

Quando pequena, vivia brincando de escorregar pelo corrimão da escada da casa, achava que podia surfar nele, que aquela peça longa que servia de apoio para suas mãos poderia ser sua prancha fora do mar, e que a almofada grande colocada em frente aos primeiros degraus da escada iria sempre suavizar sua descida. Vivia achando que poderia substituir a bola de boliche na função de derrubar os pinos. Sem que os pais a vissem, tomava distância e corria em direção a pista estreita e deslizava o corpo ereto e os joelhos dobrados calculando a freada impossível antes de atingir o ponto.

Quando adolescente, passeando com amigos na praia, conheceu um garoto que vestia uma camiseta de banda que ela ainda não conhecia. Não era a banda preferida dele, mas tinha influências de um grupo dos anos 60 que havia marcado a geração de seus pais tornando-se referência para muitas outras. Ele tinha um sotaque distante e diferente, um sorriso e olhar que viravam canção com o barulho do mar. Ela sentiu vontade de cantar aqueles olhos musicais, de dançar ao ritmo dos movimentos daqueles lábios, de abraçar no ar aqueles fios de cabelos que balançavam ao sol como notas de fá e dó.

Naquela mesma tarde ele achou um graveto queimado na areia, pegou-o do chão, segurou na mão dela e começou a correr em direção aos fundos de uma casa. Começou a desenhar na parede branca o rosto gentil da moça com o esmero de uma tatuagem sobre o peito. Queria registrar com precisão o detalhe do olhar que só se vive uma vez. Pediu para que ela se aproximasse um pouco mais, os rostos inclinaram-se, os lábios fecharam os olhos, e a lua deitou-se sobre a areia e o mar daquela tarde.

Eles passaram a misturar os lençóis de cama e a largar peças de roupas pelos cômodos. A empilhar a louça na pia e nunca se preocupar com a geladeira vazia. Não faziam questão de televisão, faziam amor durante o dia e iam ao parque a noite após assistir a algum show. A vida fazia mais sentido quando existia a ausência de deveres. Os dias tinham mais alegria, o verde mais limão, o vermelho mais morangos, o azul mais céu, o amarelo mais sol, as noites mais guitarras e violões. O mundo tornava-se um lugar melhor quando era permitido amar sem medo.

Em seus corações o mundo era um circo delirante e de alucinações vibrantes. Um balão solto na atmosfera estável de uma lona de picadeiro. Seres laranja brincando com girafas, girassóis e dromedários. Um mergulho em grupo num rio de águas fosforescentes ao encontro de um pássaro com cabeça de mulher. Um abraço empolgado na divindade dos rios, um sussurro e uma declaração de amor eterno no ouvido da mulher nova e formosa. Um passeio lisérgico de ônibus pelas entranhas dos bosques, campos e florestas. Em seus corações o amor dividia-se em múltiplos seres e coisas.

Mas o mundo gira devagar em mudanças repentinas. A flor pára de nascer no mesmo lugar, a chave não abre mais a mesma porta, o carteiro passa rente a caixa de correspondência sem deixar novidade, o elevador não pára mais no 8º andar, o café não é fresco e a margarina não derrete mais no pão quente, a verdura verde e viva na geladeira estragou, o cabelo não pode ser longo e a calça não pode ser rasgada, a velha canção de teor político perdeu o sentido, a lembrança do olhar do menino que cresceu procurando o pai congelou em algum instante inóspito do passado. A ignorância humana sangra campos de morangos e a cólera dilacera corações.

Agora ela tem que lidar com a casa cheia de cômodos e discos, a falta de um ventilador no quarto, um carro velho que a deixa na mão a cada quinze dias, passar os olhos diariamente nas manchetes de jornais que falam sobre mais um escândalo de corrupção no governo que ajudou a eleger, a preocupação de ganhar dinheiro para comprar os livros que ainda não tem, e sempre pensar na possibilidade de encontrar o mesmo velho amor na calçada de um bar, na areia da praia, no final do corrimão da escada do metrô ou do shopping.

Ela queria ser o luar e seduzir o sol para não ter mais que se preocupar em encontrar o amor.

Mas na verdade, tudo o que ela queria era segurar a mão dele e caminhar ao redor do mundo.

Jânio Dias

domingo, 2 de dezembro de 2007

Azul Olímpico

imagem: Small Blue Head, 1998 by Graham Dean

“Olha lá quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar”

Los Hermanos, em O Vencedor


A segunda-feira, a segunda série, a segunda chance, a segunda dor, a segunda cruz, a segunda vez, o segundo voto, a segunda descoberta, a segunda via, a segunda rua, a segunda roda, a segunda bola, a segunda bicicleta, a segunda rabeira, o segundo carro, o segundo defeito, a segunda mania, a segunda alegria, a segunda celebração, a segunda amizade, a segunda intenção, o segundo telefonema, a segunda conversa, a segunda boca, o segundo olhar, o segundo beijo, o segundo doce, a segunda cama, a segunda gaveta, a segunda primeira vez, o segundo trago, a segunda dose, o segundo copo, o segundo ato, o segundo quadro, a segunda derrota, a segunda tensão, o segundo tesão, a segunda bebedeira, a segunda alternativa, a segunda vitória, o segundo milagre, a segunda fé, o segundo dente, a segunda mão, a segunda face, o segundo fio, o segundo pelo, o segundo tapa, o segundo tropeço, o segundo suspiro, o segundo segundo, o segundo lado, a segunda sede, a segunda parte, a segunda pátria, a segunda escola, o segundo escoteiro, o segundo sinal, o segundo parto, a segunda união, a segunda à direita, a segunda à esquerda, de segunda mão, a segunda pergunta, a segunda resposta, o segundo hábito, o segundo tapete, a segunda dança, a segunda mesa, a segunda ceia, a segunda santa, o segundo acaso, a segunda namorada, a segunda alma, a segunda marca, o segundo caso, o segundo canto, o segundo agudo, a segunda dispersão, o segundo amigo, o segundo irmão, a segunda Maria, a segunda flor, o segundo sol, a segunda lua, a segunda água, o segundo raso, a segunda noite, a segunda diversão, o segundo sentido, o segundo caminho, o segundo desvio, a segunda tristeza, a segunda margem, o segundo dia, a segunda banda, a segunda bala, o segundo calibre, o segundo tempo, a segunda chuva, o segundo feito, a segunda barreira, o segundo emprego, a segunda caixa, o segundo sapo, a segunda queda, o segundo grito, o segundo lugar, a segunda esperança, a segunda tentativa, a segunda mesa, a segunda casa, a segunda bebida, a segunda sexta, a segunda lágrima, o segundo verso, a segunda linha, a segunda escolha, a segunda história, a segunda canção, a segunda memória, o segundo antes, o segundo depois, o segundo enquanto, o segundo branco, o segundo vermelho, o segundo azul, o segundo preto, a segunda tempestade, o segundo início, o segundo meio, a segunda borboleta, o segundo frame, a segunda notícia, o segundo palpite, a segunda certeza, a segunda vela, a segunda reza, a segunda terra, a segunda emoção, o segundo retorno, a segunda mãe, a segunda irmã, o segundo filho, a segunda geração, o segundo filme, o segundo livro, o segundo autor, o segundo personagem, o segundo flash, o segundo choro, o segundo berro, a segunda cura, o segundo excesso, o segundo gosto, o segundo amargo, o segundo conceito, o segundo aceito, a segunda morte, o segundo enterro, o segundo campo, o segundo acesso, o segundo rolando, o segundo jogo, a segunda decepção, a segunda realidade, o segundo velório, a segunda decisão, o segundo saber, o segundo recuo, o segundo profundo, a segunda ilusão, a segunda taça, a segunda pílula, a segunda seita, a segunda pelada, o segundo jogador, a segunda posição, o segundo time, o segundo coração, a segunda vida, o segundo fim, o segundo nada.

O segundo que passou eterniza o próximo.

Parabéns Corinthians pela Segunda Divisão.


Jânio Dias