sexta-feira, 12 de junho de 2009

Veja Essa Canção

imagem: arquivo pessoal


“Se um dia fores embora
Te amarei bem mais do que esta hora”

Legião Urbana, em Música Ambiente


Se acaso acontecer de não mais vê-la, saiba que ainda estarás comigo.

Mesmo que eu passe caminhando em frente a sua casa, olhe para sua janela, torça para que seus olhos percebam o balanço de meu cabelo dançando com o vento, saiba que minha vontade de entrar ficou suspensa no número do seu endereço. Minha vontade de entrar é a segurança de que você é feliz quando sai e quando volta para casa.

Mesmo que eu não mais te leve à nova mostra de cinema, à próxima bienal do livro ou à exposição dos dinossauros, saiba que a descoberta do novo é tão importante quanto o aroma das uvas envelhecidas. O equilíbrio entre o sabor do passado já conhecido e a observação de perto do que vem depois é a inovação do presente. Mesmo que não seja eu a sua companhia, as digitais de seus dedos ainda estarão dentro de meus bolsos.

Mesmo que eu não mais te escreva, mesmo que você não mais me leia em lugar algum, saiba que os sons das suas vogais sempre influenciarão a entonação da minha leitura em todo poema.

Mesmo que eu não mais revise o carro e encha o tanque para descermos a serra com a leviana intenção de molharmos os pés e marcarmos nossos passos na areia para em seguida voltarmos, saiba que toda onda que se aproxima de minha sandália é um dilúvio que não altera ou apaga nossas pegadas.

Mesmo que eu não mais lhe envie flores em seu aniversário e não mais me desculpe pela confusão que sempre faço com datas, saiba que todo lírio e todo amor-perfeito sempre exalam a sua presença; e que todo pequeno cartão em branco é um complexo desafio de ser preenchido sem que você comece a primeira frase.

Mesmo que você não mais me avise de suas viagens ou comente após a volta das belezas que descobriu, saiba que quando viajo cada par de meias é escolhido imaginando a sua aprovação. Os colarinhos de meus casacos só acomodam o nó do cachecol que você me ensinou a fazer.

Mesmo que eu não mais use em meus dedos o anel com seu nome impresso no lado de dentro, saiba que este que uso hoje e vive passeando entre o polegar, o indicador e o dedo do meio de ambas as mãos, tem o desenho de uma lua e uma estrela (eu sou a lua); e que antes deles já existia o meu amor, e que depois permaneceu.

Mesmo que eu não mais lhe pergunte sobre seus pais, saiba que carrego diariamente comigo um ramo de estima e afeto.

Mesmo que eu não mais contorne as cores dos seus dias, saiba que cada lápis de cor daquele estojo que me destes é uma alma viva sobre o relevo de minha pele.

Mesmo que nossas vozes não mais conflitem os gritos dos apaixonados, a lembrança de sua língua ainda silenciará os relâmpagos externos.

Mesmo que nossa fúria não mais alimente a intensidade de nossos lábios ao se chocarem, a insônia de nossas noites adormecerá o horizonte do meu corpo.

E se amanhã eu não mais tiver seu beijo antes de me encontrar com o sono, se eu não mais sentir meus joelhos dobrados em suas costas, se eu não mais entrelaçar meus braços por entre seus seios, se eu não mais me perder entre os fios dos seus cabelos, se eu não mais tiver que reclamar que meus pés estão para fora da coberta, ou que os travesseiros estão trocados, saiba que ainda assim você permanecerá comigo.

E se acaso acontecer de não mais senti-la em mim, saiba que ainda assim, eu te amarei.

Jânio Dias

4 comentários:

Bité* disse...

Olá, Jânio...

Não sei bem dizer porque, mas seu texto soou para mim como o longo refrão de uma música, talvez como indique o título, e também me fez sentir a força das coisas que não são, ou que podem vir a não ser, mas que existem em nossa idéia, em nosso corpo, como um sentimento vivo que prescinde da própria realidade; assim como a saudade que materializa a nossa dor e é capaz de transformar o passado, e também nossos sentimentos, num presente contínuo de emoção ao que nos desperta, ou já nos despertou, profundamente... Não sei.

De qualquer forma, obrigado pela experiência.

Abraço!

Maria disse...

Enobrecedor. É tudo que consigo dizer...

Meu beijo

Renata disse...

Lindo post do dia dos namorados!

Jânio Dias disse...

Bruno! Que lindo: "um longo refrão". Um refrão que se repete em palavras diferentes dizendo o tempo todo a mesma coisa. Valeu! Um grande abraço!

Maria... Obrigado! Você é muito doce comigo. Beijo!

Oi, Re! Demorô de novo pra aparecer! ;) Beijos!