domingo, 17 de maio de 2009

Doce Vida

imagem: Still Life with Sky Element, 1995, Alan Kingsbury


“A fome tem uma saúde de ferro
Forte, forte como quem come”

Nação Zumbi, em Fome de Tudo


Eu tenho fome de tudo que se move. Eu tenho fome de tudo que derrama. Tenho fome de tudo que é calor; fome de tudo que molha; fome de tudo que ainda posso tocar com o repouso dos cílios. Tenho fome de tudo que cativa o afeto da retina.

Eu tenho fome do tempo em que minha mãe me levava para a escola. Tenho fome do tempo em que meu pai me buscava na escola. Tenho fome do bordado que desenhava meu nome no boné. Tenho fome de vender geladinho frente ao portão de casa. Tenho fome de juntar moedinhas para comprar doce na venda do seu Osmar. Tenho fome da coleguinha que me ajudava a amarrar o cadarço do tênis no prézinho. Tenho fome da professora Edna que me ensinou a cantar o alfabeto. Tenho fome de escorregar no pátio de mãos dadas. Tenho fome dos meninos mais velhos que conversavam sobre Star Wars. Tenho fome do gramado do outro lado da janela da sala de aula. Tenho fome da merenda da dona Lourdes. Tenho fome das gincanas das festas juninas. Tenho fome das danças com as meninas mais altas. Tenho fome dos pedidos de prendas nas portas das casas. Tenho fome do balanço improvisado entre o pé de abacate e o pé de manga. Tenho fome dos álbuns de figurinhas incompletos. Tenho fome de bater e trocar figurinhas. Tenho fome do cheiro da terra vermelha da estrada. Tenho fome de brincar de fazer lama atrás do quintal. Tenho fome das unhas compridas que ajudavam no momento de jogar bolinha de gude. Tenho fome da minha coleção de bolinhas. Tenho fome de fazer cerol escondido da minha mãe. Tenho fome da linha corrente 10. Tenho fome do vento que me fazia senhor do céu. Tenho fome de disputar a posição de melhor goleiro com meu amigo Carlinhos. Tenho fome dos chutes precisos do meu amigo Jefferson. Tenho fome das bolas de plásticos que furavam nos espinhos do limoeiro. Tenho fome de falar sobre a seleção brasileira com minha vizinha Renata. Tenho fome dos filmes de Bruce Lee. Tenho fome do meu cachorrinho Lulu. Tenho fome da comida da dona Geralda. Tenho fome da esperteza da Simone que cuidava de mim. Tenho fome das roupas curtas da Jacqueline que também cuidou de mim. Tenho fome da Solange que visitava a minha mãe. Tenho fome das visitas em noites de quarta-feira do tio Antonio. Tenho fome dos chocolates que meu pai comprava no trem. Tenho fome da pressa de vê-lo chegar em casa com alguma surpresa. Tenho fome da falta de sua presença. Tenho fome da bicicleta que nunca consegui impor o equilíbrio. Tenho fome dos quadrinhos que me eram proibidos. Tenho fome dos gibis que os amigos liam. Tenho fome das rádios AM que minha mãe ouvia e tocavam rock nacional. Tenho fome dos programas de TV que repetiam tanta novidade. Tenho fome do gosto de descobrir o estranho para meus pais. Tenho fome de estudar na mesma rua de casa. Tenho fome da barraquinha de doces do seu Ezequiel. Tenho fome da coleção de livros Vaga-Lume. Tenho fome da postura sensual da professora Vera Lúcia. Tenho fome das incitações políticas da professora Jurema. Tenho fome das letras das canções que despertava furor juvenil. Tenho fome do eu romântico das canções em primeira pessoa. Tenho fome das aulas de educação física do professor João Seleção. Tenho fome das competições de futebol de salão. Tenho fome das tardes rumo à cachoeira. Tenho fome do andar despreocupado pela rodovia com a camiseta enrolada na cabeça. Tenho fome dos bailinhos da oitava série. Tenho fome da troca do futebol pelo basquete. Tenho fome das manhãs de domingo indo de casa em casa para juntar o pessoal para jogar basquete. Tenho fome dos cafés da tarde na casa da Dona Sônia. Tenho fome da falta de fotos com os meus irmãos pequenos. Tenho fome das conversas sobre paixão com o amigo Alves. Tenho fome das discussões sobre o que é a vida com o amigo Sidnei. Tenho fome dos encontros e debates musicais com o pessoal do fã-clube da Legião. Tenho fome da astúcia concreta do Márcio. Tenho fome da maturidade precisa da Luzia. Tenho fome do encantamento radiante da Alcina. Tenho fome da sabedoria critica da Claudinha. Tenho fome dos shows que não vimos juntos. Tenho fome das bandas de Seattle. Tenho fome do Nirvana em São Paulo. Tenho fome de Caio Fernando Abreu. Tenho fome dos Amigos eleitos. Tenho fome das nossas reuniões. Tenho fome das nossas leituras. Tenho fome das nossas preocupações. Tenho fome de nossas ansiedades. Tenho fome de nossas conquistas. Tenho fome de nossas ilusões. Tenho fome das cartas enviadas. Tenho fome das respostas recebidas. Tenho fome do pulo sobre o muro do trem para atravessar a cidade. Tenho fome das flores roubadas para presentear no aniversário. Tenho fome de não ter tentado outra faculdade. Tenho fome de não ter experimentado um caminho diferente. Tenho fome do primeiro sólido amor. Tenho fome dos planos de voo. Tenho fome das asas que alcançaram o céu. Tenho fome da beleza que aconteceu.

Tenho fome de tudo que queima; fome de tudo que vira bolha; fome de tudo que derrete. Tenho fome de cicatriz.

Tenho fome de tudo que se espalha em minha memória. Fome dos vestígios que modulam o despertar dos dias. Tenho fome de tudo que se prendeu às lâminas escorregadias do coração.

Minha fome não é urgente, não é ávida; às vezes nem necessária. Minha fome é apenas sentida com os lábios da mordaça.

Minha fome é um pedaço de inveja da pureza que se disfarçou de gente adulta. Minha fome é um meio arrependimento daquilo que se hesitou viver com vigor. Minha fome é orgulho travesso no prato do ontem.

Fome é uma lembrança repentina que nos visita. Fome é uma saudade que ainda não passou.

Jânio Dias

13 comentários:

Adriano disse...

Querido Jânio,

Sua citação da música Fome de Tudo, do maravilhoso grupo pernambucano Nação Zumbi não poderia ser mais adequada. Este disco é muito bom. Na verdade, a idéia contida nele, a meu ver, é uma síntese da trajetória da própria banda, sempre com seu jeito tão antropofágico de ser, adquirindo, mesclando e transformando tantas influências de idéias, filosofias e sonoridades.

Creio que também somos um pouco assim. Alguns filósofos comparam nossa mente a uma tábula rasa, uma lousa em branco, onde a vivência de uma multiplicidade de experiências, a reflexão sobre uma série de idéias e a consequente absorção e transformação de todos estes conceitos dentro de nós, caracterizariam este nosso jeito meio antropofágico de ser.

Como uma esponja, absorvendo tudo através de nossos sentidos, digerindo bem (ou não) tudo isto e devolvendo ao convívio social o fruto de nossa deglutição e digestão, que serão transformados por outras pessoas, infinitamente.

Também percebo que este texto tem um pouco a ver com algumas coisas que conversamos no texto anterior. Fome de viver tem a ver com o significado comumente aceito sobre a paixão.

Acredito que todos temos Fome de Viver. Coisas distintas, bem distintas, mas que ainda sim representam a mesma Fome. Todos temos desejos. A Fome pode ser a lembrança ou saudade, a vontade de reviver determinados períodos de nossas vidas, como você falou, mas também podem significar metas, anseios, projeções, vontades, referenciais que nos orientam, nos norteiam em nossas buscas por algo que nos complete.

Talvez esta Fome seja o que nos caracteriza, da maneira mais profunda e completa, como seres humanos. Um forte abraço.

P.S. - Próximo show da Nação Zumbi aqui em São Paulo vou lhe convidar para ir comigo, topas?

Renata disse...

tenho fome de seus posts para alimentar minha "ulcera"... rs

Jânio Dias disse...

Grande Adriano! Pois é, sabe que não tenho Nação no meu currículo de shows? Um pecado, né?! Aceito o convite, sim. Obrigado! A Nação Zumbi deve ser um dos últimos grupos nacionais a fazer discos temáticos, né?. O que impõem necessariamente altas doses de criação artística no trabalho. Misturar maracatu com psicoledia, metal, eletrônica... exige alto nível de ousadia também. E já que você foi tão incisivo sobre a Nação, devo confessar que a idéia de falar de alguma coisa com a palavra fome me veio à mente a partir da audição deste último disco. Ficou aqui martelando, martelando... E estava óbvio pra mim que eu já tinha a epígrafe para o texto antes de escrevê-lo. Às vezes acontece assim, como aconteceu também com a epígrafe do Nenhum de Nós em O Coração e o Compromisso, apesar de na hora eu ter umas cinco outras opções mais afinadas com o tema daquele texto. Acho que todo escrito pode ter várias leituras, assim como sabiamente você ajuda aqui a fazê-lo. E "Fome de Viver" - como você colocou - pode ser uma delas sim, está diretamente conectado. Mas acho que esse texto está mais voltado para reminiscências da infância até o equilíbrio da adolescência. Veja que ele começa lá no prézinho da escola, passa pelo primário, ginásio e colégio de uma forma não tão clara, mas está lá. Ele podia se chamar tranquilamente O Fim da Infância (aliás, ele chegou a chamar-se assim), mas talvez ficasse fácil demais a visualização da idéia ( e também porque a banda Tantra ta lançando um disco novo com esse nome), e nomes fáceis de texto é pura preguiça de quem escreve, assim como já aconteceu comigo em Laila ou Dona Ana... e Doce Vida talvez traga essa possibilidade de ir um pouco além como você fez, além de soar (ao menos para mim) um tanto irônico pois a vida nem sempre é doce; doce são algumas lembranças, alguns desejos, algumas tentativas, como segurar com a mão fechada bolinha de sabão, como tentar manter o algodão doce dentro da boca sem derretê-lo. Assim acontece com determinados momentos de nossa vida, onde gostaríamos de repeti-los mais um pouquinho, segurá-lo mais uma vez, mas só podemos projetá-los em nossas mentes, em conversas saudosistas ou na criação dos filhos. De toda forma, sua interpretação está correta, fome é essa incompletude que nos motiva a buscar, e só conseguimos sacia-la momentaneamente. Abração!

Jânio Dias disse...

Oi, Re! Tava sentindo sua falta aqui. Já ia te procurar pra saber porque havia me abandonado... hehehe! Beijos... na sua úlcera!

Maria disse...

Tava com fome daqui já, menino.
Ler seu texto deu muita, muita fome!!

Meu beijo

Maria disse...

Ahhh! Conheci seu antigo blog... depois digo tudo que achei, perdi-me por lá em tantas emoções...

Outro beijo

Biba disse...

Olá, essa fome é como um grito de liberdade. Tenho tanta fome assim como você. Tenho sede também. E nada disso passa.

Beijo,
Carpe Diem!!!

Jânio Dias disse...

Olá, Maria! Fique a vontade para saciá-la, para depois voltar a ficar com fome! Então você conheceu meu blog antigo? Você viu, dias azuis... Quero mesmo saber suas impressões, hein?! Beijo!

Olá, Biba! Fico muito satisfeito em vê-la aqui. A sede é amiga intima da fome. Beijo!

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Oi Menino Bonito
Seu nome foi sorteado! (vide post rs)
Mas acho que vou levar mais de ano para conseguir visitar todo mundo... Chego aqui e encontro essa fome intensa e que em grande parte coincide com as minhas fomes e vou descendo, e encontro a terceira criança que sempre fui, aquela que arrebata, quebra cara, mais intensa; lembro do casamento na igreja, que eu não queria, e que acabou sendo a última alegria do meu pai; e vou passeando até o sítio da sua avó, com fala alta e trança no cabelo e chego até onde nossos olhos se encontram.
Descoberta maior: também tenho olhos que ora são verdes, ora azuis, cinzas e outras cores... quando me perguntam a cor dos meus olhos peço à pessoa para olhar e definir! É uma dádiva ter olhos assim (apesar dos óculos escuros)
Grande beijo menino, que Deus te guarde

Bité* disse...

Já foi dito que "a paixão é a fome da alma", e os alimentos dessa sua fome, paixão e alma, me levaram a muitos lugares da minha infância, e me fizeram experimentar mais uma vez a doçura das coisas que vemos com o repouso dos cílios.
Sua narrativa é um majestoso guia nas viagens de nossas reminiscências. Portanto, é justo agradecer a essa oportunidade que seus textos nos oferecem: valew, Jânio!

Abraço!

Jânio Dias disse...

Olá, Querida Kátia! Você ficou muito tempo longe... imaginei que tivesse me esquecido. Mas estive te acompanhando, eu te entendo... Muito obrigado pelo costumeiro carinho. Beijo!

Poxa, Bruno... Obrigado você! É muito gratificante saber que as imagens desse texto o fizeram dar uma passeada no jardim de sua infância. Grande abraço!

Renata disse...

Jamais abandonarei seus vestígios caro Jânio, é que as vezes faltam palavras para fazer um comentário a altura de seus posts! kkk as vezes "desencano" e deixo qq coisa registrada por aqui... ;)

Marcelo disse...

...saudades...fome...de ouvir Radio Taxi (Eva, Garota Dourada...), Toquio (Garota de Berlin, Humanos...), Beafra, Marquinhos Moura, Yahoo, Bianca, Baby e Pepeu, Civil... na Radio America!...jogar futebol de botão no meu Estrelão onde eu não perdia pra ninguem! (Solito,Alfinete,Daniel Gonzalez,Juninho e Vladimir, Biro-Biro(ou era Lero-Lero?!)Socrates e Zenon,Ataliba,Paulinho e Casagrande!), este era meu esquadrão dos tempos de Rua Calandra, 19-A - Jaçanã,! com foto nos botões e tudo!...de achar que apesar do Renato ser o mais inteligente e sensitivo quem iria nos liderar para uma grande revolução era o Paulo Ricardo...que o Corinthiano Ayrton Senna era um heroi imortal...que eu talvez tivesse uma chance um dia com a Simony,(... um dia mas uma canção e tao pouco e nem cabe tudo que eu quero falar...se enamora...!)...de ouvir algumas broncas e principalmente muitos conselhos do meu Pai...desculpe, mas não da para continuar...