quarta-feira, 13 de maio de 2009

A Terceira Criança

imagem: Yellow Field, Kedleston, Derby by Andrew Macara


“Eu posso sentir o que a paixão faz em segundos
Eu posso sentir o que o amor fez depois de anos”

Os Paralamas Do Sucesso, em Scream Poetry


Ela insistiu para que eu fosse atrás de uma antiga
lenda que falava sobre duas crianças, um menino e uma menina. A primeira chamava-se Amor e a segunda Loucura. Eram muito amigas, cresciam juntas, quase que inseparáveis. Amor era gentil, terno, compreensivo; Loucura era passional, impulsiva e emotiva. Não se sabe por que, mas um dia ambos brigaram violentamente, a ponto de Loucura arrancar os olhos de Amor.

Ela não quis me responder por que eu devia procurar essa narrativa. Além de muito bonita, será que ela queria me mostrar algo mais? Fui deitar pensando que talvez quisesse que eu me identificasse com uma das crianças; ou será que queria que eu lhe dissesse qual das pequenas criaturas era ela?

Antes de o sono adormecer as pálpebras, suspeitei que um terceiro elemento pudesse estar entre o amor e a loucura.

Tudo começa com um encantamento terno de querer bem, de muita gentileza e simpatia, para depois passar a um estado de alta intensidade, de calor ardente, de grande entusiasmo, que tende às vezes a se transformar em afeto dominador de quase obsessão. Acho que chamo isso de sentimento de estar apaixonado.

Um antigo professor dizia que paixão é amor e loucura destituída dos olhos frios da razão.

Já fiz muitas coisas ausentes de razão quando apaixonado. Já acordei muito cedo para esperar a colega da escola embaixo de uma árvore em frente a sua casa numa manhã de chuva. Já confidenciei a um amigo que gostava da menina que ele queria namorar. Já dormi várias vezes na rodoviária depois de ter perdido o último ônibus quando voltava da casa de uma namorada que morava em outra cidade. Já rabisquei poemas cujos traços não tiveram cópias guardadas comigo porque eram exclusivos das meninas que os receberam. Já quase capotei o carro em uma curva porque estava atrasado para um encontro. Será que eu era Amor ou Loucura nesses acontecimentos?

Talvez apenas um doce e extremo estado de arrebatamento.

Quando me apaixono os olhos se abrem num clarão que suspende o corpo inflado de meu ego. Bóio em suspenso repouso no aguardo do despertar do próximo contato.

Acordo entusiasmado com o sol que ainda não nasceu. Preparo meu próprio café e ofereço parte às flores do quintal da casa. Só o jardim do próprio lar entende uma madrugada de despertar apaixonado.

Canto com o bem-te-vi pousado próximo ao pé de amora uma canção de bem querer. Sou um pássaro cuja garganta conversa com as folhas que se espalham pelo chão. Sou amigo do vento que dispersa as sementes do trigo.

Cuido do cabelo como se uma foto 3x4 sempre rejuvenescesse. Proíbo o crescimento dos pelos do rosto para que a pele deslize suave como roupa de veludo. Aliso a camisa como que engomasse o próprio corpo com o ferro de passar. Compro um perfume novo para beber como licor que marca a refeição. Eu me visto para desabotoar o vestido do desejo.

Quando apaixonado eu não visualizo a profundidade do rio, não reparo a intensidade das águas. Não enxergo o presente próximo das margens opostas, ignoro o passado de seu leito, não distancio o futuro da nascente.

Eu não reparto as horas, não devolvo os minutos que me antecederam. Enfureço-me se não fui avisado, espumo pelas orelhas se não fui compreendido. Eu sou o joio no beijo se não sinto reciprocidade na verdade. Quando apaixonado eu queimo o tempo do plantio.

A paixão não explica o ser. Ela estabiliza a imperfeição de sermos o que nunca temos.

Não consegui saber se o que ela queria era questionar qual das duas crianças eu sou. Mesmo assim deixo aqui minha resposta: sou a terceira. Eu sou Paixão.

Ainda intrigado insisti para saber por que achava que eu tinha de ter contato com essa estória. Disse-me apenas que certas manhãs não podem ser apagadas do coração.

Jânio Dias

11 comentários:

VaneideDelmiro disse...

Jânio, lindo texto. A gente vai lendo e se encontrando nas linhas de tua prosa poética.
"Certas manhãs não podem ser apagadas do coração..." Certos textos também não.

Gosto muito do quê e como escreves.
Abraço!

Bruna Murilo disse...

Obrigada por tudo.
Cada vez que passo por aqui minha alma se enche de alegria, como é bom viver...
Precisava disso, parabéns!

BeijO.

Mari disse...

Já falei que admiro ocê demais da conta!!! Parece coisa de mágico!!! :-p

Adriano disse...

Jânio,

Lindo texto, como todos o que você escreve... A paixão realmente é capaz de remover montanhas. Seja a paixão por outro ser humano, seja a paixão por algo; seja este um objeto, uma atividade, uma circunstância, etc. No meu entendimento, porém, discordo um pouco de seu professor. Creio que a paixão tem muito mais de loucura do que de amor. Quando penso em paixão, penso em velocidade, furor, impulsividade, arrebatamento. Poeticamente, quando penso em paixão sempre me vem à mente Walt Whitman, por conta de sua maneira de escrever. Mas paixão também tem a ver (no meu entendimento) com inconstância e, muitas vezes, até com um certa dose de ilusão. Portanto, o meu ideal de comportamento é o Amor mesmo. Almejo esta constância, gentileza, compreensão, auto-realização, Iluminação. Em toda e quaisquer circunstâncias. Claro que a paixão é muito necessária na vida. Muitas vezes é necessária uma boa dose de paixão para levantarmos da cama para viver. Mas, no meu caso, desejo que as minhas sejam domadas pelas rédeas do Amor. Controladas pelo equilíbrio, pelo Caminho do Meio; que meu corpo, mente, coração e alma fiquem estáveis, com olhar profundo e atento sabendo como e onde agir, suportando os vendavais das paixões.

Um fortíssimo abraço.

Adriano.

P.S. - Um dia eu gostaria de conhecê-lo pessoalmente.

Jânio Dias disse...

Olá, Vaneide! Muito obrigado pelas palavras carinhosas. É sempre uma honra tê-la por aqui. Um Beijo.

Oi, Bruna! Obrigado você. A alegria da sua alma é que te faz uma pessoa querida. Viva sempre no volume máximo. Beijo!

Mari...? Mariliza?!!!? Uau! Mágico é ter você por aqui. Beijão!

Oi, Adriano! Já te disse que sou fã dos seus comentários?! A parte que mais gosto é quando você discorda, porque permite a abertura de um leque de outras visões... E isso é engrandecedor. Acho que no fundo proponho no texto que a paixão seja um misto de amor e loucura. Ela começa onde você diz querer estar estabilizado como Ser: na gentileza, na compreensão... Passa por um estágio de total empolgação até virar uma idealização, que as vezes não passa de ilusão mesmo. Ilusão é passar dias para escalar uma montanha e descer de lá minutos depois; mas o objetivo movido pela paixão foi realizado. Vejo na paixão um constante equilíbrio distante; mas carregado de afeto, busca, desejo... acompanhado por alguns vícios, de impulsividade e furor. Uma vida cheia de paixão talvez até seja uma memória com mais cicatrizes; mas toda cicatriz é linda, uma lembrança de que a vida aconteceu. Um carinhoso abraço! PS.: claro, será uma honra ser seu amigo.

Bité* disse...

Talvez não haja lenda mais presente em nossas vidas, e que nos defina tão bem, como essa tensão constante entre dois pólos, um passional outro racional, um tranquílo outro agitado etc. E mais uma vez suas imagens pintaram um belo quadro.


Valew!

Paixão, M. disse...

Paixão? Também sou Paixão. De sobrenome e tudo, rs.

Muito bonito mesmo seu texto, muito bem escrito! Olhando aqui o seu blog percebo que tem também uma sensibilidade musical admirável :)

Muito obrigada pela visita!
Um grande abraço!

Jânio Dias disse...

Oi, Bruno! É isso mesmo: “uma tensão constante”. Melhor ainda quando acompanhada de um tesão constante! Adorei a idéia de um quadro pintado. Valeu mesmo. Grande abraço!

Olá, Paixão, M.! Seja muito bem vinda! Muito obrigado pela gentileza nas palavras. Outro abraço!

Maria disse...

Ah Jânio! Só vc conseguiria escrever coisas lindas assim, aliás, só vc sentiria coisas lindas assim. Tua unicidade absoluta te faz ir sempre além e conseguir ser o terceiro de uma escolha de dois. És paixão em tudo, isso é muito nítido.

Meu beijo

Jânio Dias disse...

Ah, Maria... só você para ser tão carinhosa assim. Muito obrigado. Beijo!

Marcelo disse...

Essa historia eu ja conhecia, no entanto ate hoje não sei bem quem eu sou, ou talvez quem eu estou!